
"Tem horas que é o macho dominado, a fêmea."
Foi ela quem disse, semanas antes, no meio de uma tarde qualquer, no tom exato de quem comenta o tempo — e seguiu mexendo o café como se não tivesse acabado de largar uma frase acesa em cima da mesa. Ele guardou a frase. Ela guardou a intenção. E essa sempre foi a diferença entre os dois: ele colecionava as palavras dela como quem coleciona mapas; ela colecionava os silêncios dele como quem estuda o terreno.
Porque houve também o áudio. Aquele áudio. Gravado numa noite de coragem emprestada, apagado duas vezes antes de ser enviado, o dedo pairando sobre o botão como sobre um gatilho: queria que você fosse bem dominadora comigo... fizesse tudo que quiser comigo. A voz dele no áudio saiu menor do que ele pretendia. Morrendo de vergonha. Morrendo de tesão. As duas mortes na mesma frase.
Ela respondeu com uma risada curta e uma palavra só: anotado.
Ele achou que era brincadeira. Ele nunca aprendia. Ela nunca era previsível — e entre essas duas leis da física do casal, toda a história deles acontecia.
A campainha tocou às oito em ponto.
E isso, sozinho, já era um aviso. Ela nunca chegava em ponto. Ela chegava quando chegava, trazendo atrasos perfumados e desculpas que não pediam perdão — e um homem que conhece os hábitos de uma mulher sabe ler o dia em que os hábitos mudam. Pontualidade, nela, era protocolo. Alguma coisa tinha hora marcada para começar.
Ele abriu a porta e ela entrou sem beijo, sem "oi, lindo", sem nada — passou por ele como se ele fosse a porta, deixando no ar o rastro do perfume proibido e, pendurada na mão, uma sacola preta que ele não conhecia. Vestia um sobretudo fechado até o pescoço, abotoado com uma disciplina que não combinava com a temperatura da noite.
Ele já tinha aprendido, da pior e da melhor maneira, o que os casacos fechados dela escondiam. A regra era simples: quanto mais pano por fora, menos por baixo.
— Senta — disse ela, apontando o sofá com o queixo.
— Selene, o que...
— Regra número um. — Ela largou a sacola na mesa de centro com um peso que não era só da sacola, e ficou de pé diante dele, olhando de cima. Aquele olhar tinha andares. — Hoje você não fala. Você responde. E só quando eu perguntar.
O coração dele deu o tranco que ele conhecia bem — o tranco do áudio, o tranco do anotado. Alguma parte antiga dele, treinada a vida inteira para conduzir, procurou uma piada para retomar as rédeas da sala. Não achou. A boca fechou sozinha, e o silêncio que ele fez foi a primeira obediência da noite — anterior a qualquer ordem, voluntária, e por isso mesmo a mais grave.
Ela percebeu. Não sorriu. Anotou em algum prontuário interno que ainda não existia.
— Regra número dois. — Ela começou a desabotoar o sobretudo. Devagar. Um botão por frase, pontuando com o corpo. — Se eu mandar, você faz. Sem discutir. Sem negociar. Sem essa sua mania de querer conduzir tudo.
Botão. Botão. Botão.
O casaco abriu.
Ele esqueceu de respirar — e soube que esqueceu, o que é pior, porque teve tempo de escutar o próprio fôlego faltando. Era exatamente como ele tinha imaginado naquela tarde do áudio, e ao mesmo tempo não era nem parecido, porque a imaginação dele, descobriu ali, era um amador de mão trêmula perto dela ao vivo: o corpo desenhado em preto, um preto que não vestia — sublinhava; as pernas que não terminavam nunca, escoradas num salto que a deixava na altura exata de olhá-lo como se olha uma coisa que se possui. O sobretudo escorregou pelo chão e ficou lá, morto, dispensado do resto da noite.
Ela não fez nenhuma cerimônia com o silêncio dele. Gostava dele mudo.
Mudo, ele era todo olhos.
— Regra número três. — Ela se inclinou, pegou a sacola, e tirou de dentro o objeto sem pressa nenhuma, deixando a revelação acontecer em prestações: primeiro o couro preto, depois a fivela pequena, depois a argola de metal, que tilintou baixinho no ar da sala — um som mínimo, de sino de porta, anunciando que alguém estava entrando num lugar de onde não sairia igual. — Se ficar demais, você diz vitral. Aí tudo para. Eu viro a Selene de novo, e você vira meu lindo. — Ela chegou perto, a coleira pendurada num dedo só, balançando devagar entre os dois como um pêndulo decidindo o futuro. — Mas até essa palavra sair da sua boca... você é meu.
E então ela esperou.
Essa era a parte que a fazia tremer por dentro, embora o rosto não mostrasse nada — porque dominar, ela estava descobrindo naquele exato segundo, é uma coragem com plateia: ele podia rir. Podia amarelar. Podia quebrar o feitiço de mil maneiras educadas, e cada uma delas doeria mais que a anterior. Era tudo novo para os dois. Ela nunca tinha domado ninguém. Ele nunca tinha se ajoelhado para ninguém. Dois adultos inteiros, feitos, donos de si, apostando alto na confiança um do outro sem saber de onde ela vinha — sabendo só que vinha, e que chegava com juros.
Ele inclinou a cabeça para a frente.
E ofereceu o pescoço.
Não há, na vida de um homem mandão, gesto mais barulhento do que esse silêncio: o queixo cedendo, a nuca exposta, a garganta entregue à mão de outra pessoa. Ela prendeu a fivela com dedos firmes — só um leve tremor no último furo, que ele fingiu não notar por gentileza, e essa gentileza foi o segundo voto da noite — e quando o couro fechou sobre a pele dele, alguma coisa fechou junto dentro dos dois. Um circuito. Ela puxou a argola com um dedo, testando a corrente nova do mundo, e o queixo dele subiu obediente, os olhos presos nos dela.
— Uau — sussurrou ela.
Meio segundo. O personagem rachou por meio segundo, e pela fresta passou a mulher deslumbrada com o que tinha na mão. Depois a racha fechou, e a voz voltou de aço:
— De joelhos.
Ele desceu.
E descobriu, ali embaixo, olhando-a de baixo para cima — o rosto dela emoldurado pela luz da sala, o corpo em preto ocupando o mundo inteiro disponível, o sorriso de quem finalmente pegou o brinquedo que queria — que se ajoelhar não diminuía nada. Ao contrário. Havia uma matemática nova naquele chão que nenhuma vida em pé tinha lhe ensinado: nunca tinha se sentido tão grande quanto servindo aos pés dela.
— Tira minha bota. Devagar.
Ele levou as mãos ao zíper, e a voz o corrigiu de cima, paciente como um professor de língua estrangeira:
— Com a boca. Eu disse devagar.
Ele desceu o zíper com os dentes, milímetro por milímetro, como quem desembrulha algo sagrado e caro que quebra. O couro cedeu com um suspiro. Uma bota, depois a outra — e entre uma e outra ele entendeu que a lentidão não era estética, era pedagogia: no ritmo dela, cada gesto durava o bastante para ele sentir o que o gesto significava.
Ela afundou na poltrona dele.
A poltrona. O trono da casa, o assento de onde ele lia, decidia, mandava no próprio mundo — requisitado agora sem uma palavra, ocupado como os exércitos ocupam capitais: sem pressa, com a certeza de quem não devolve. Ela cruzou as pernas com uma lentidão criminosa, e a ponta do salto que sobrou no pé dela veio brincar no peito dele, escrevendo ali alguma coisa que ele não leu e assinou mesmo assim.
— Sabe o que eu percebi? — disse ela, o tom de conversa de sofá, como se ele não estivesse de joelhos com uma coleira e o coração aos pulos. — Você passou a vida inteira no controle. Conduzindo tudo. Decidindo tudo. Aquele homem que resolve. — A ponta do salto parou em cima do coração, precisa. — Deve ser exaustivo.
Ela descruzou as pernas. Abriu.
— Hoje eu vou te dar férias.
Puxou a coleira. Ele veio.
— Me chupa. E não para enquanto eu não mandar.
Era a fantasia dele dita pela boca dela, palavra por palavra, devolvida com a caligrafia corrigida — e ele mergulhou nela como um devoto reincidente, a língua lenta, funda, no ritmo exato que a mão dela ditava, fechada no cabelo dele. Quando ele acelerava por conta própria, empolgado, homem, ela puxava: quem mandou? — e a pergunta descia por ele como água fria e como brasa, as duas coisas, porque ser corrigido por ela era ser visto por ela. Quando obedecia bonito, ela afrouxava os dedos e gemia o nome dele.
E o nome dele, gemido por ela, do alto do trono que tinha sido dele — que um homem passe a vida ganhando salários, apertos de mão, títulos: nenhum pagamento chega perto do próprio nome gemido pela mulher que o pôs de joelhos.
Ela gozou a primeira vez assim. No trono dele, com ele a seus pés, a coleira enrolada no punho como rédea curta, sem pedir licença e sem ter pressa, tremendo em ondas largas, as coxas apertando a cabeça dele para que ele não fosse a lugar nenhum do mundo — como se ele quisesse ir, como se existisse outro lugar —, e não o deixou parar até a última onda passar e devolver a praia.
Depois olhou para baixo.
Ele estava desfeito. Duro. O rosto molhado dela, os olhos subindo em súplica muda — implorando inteiro sem dizer palavra, porque falar era proibido e ele, descobriu-se, era um homem de palavra.
— Olha só você — disse ela, e havia uma ternura ali, mas era uma ternura com dentes. — Pode pedir. Eu deixo.
Ele respirou fundo. E gastou a única fala liberada da noite assim:
— Deixa eu te dar prazer de novo.
Ela riu — surpresa de verdade, um riso que escapou antes de pedir autorização ao personagem. Esperava um deixa eu gozar. Todos os homens do mundo pediriam a própria vez. O dela pediu a dela.
— Você é mesmo... — Ela balançou a cabeça, sem terminar, e o aço da voz derreteu uma nadinha nas bordas, só nas bordas. — Cama. Deitado. Braços pra cima.
Na cama, ela amarrou os pulsos dele na cabeceira com o cinto do próprio sobretudo — e havia uma justiça fina nisso, o disfarce da chegada promovido a ferramenta —, o nó frouxo o bastante para escapar, apertado o bastante para ele não querer. Entre essas duas medidas, ele entendeu, morava a noite inteira: nada ali o prendia de verdade, exceto tudo.
Então ela o montou. Devagar. Encaixou-se nele centímetro por centímetro, sem desviar os olhos dos olhos dele nem por decência — decência não tinha sido convidada —, e cavalgou no ritmo dela, para o prazer dela, usando-o com uma franqueza que nenhuma gentileza jamais alcançou. Ele era a cama, o brinquedo, o território. E cada vez que ele chegava perto demais da borda, ela diminuía o passo e avisava baixinho, a voz de quem adestra:
— Ainda não. Você goza quando eu mandar. Aguenta pra mim.
Ele aguentou a primeira. De punhos fechados, o cinto rangendo na cabeceira.
Aguentou a segunda mordendo o lábio até o gosto de metal, enquanto ela gozava de novo em cima dele, apertando-o por dentro, os olhos fechando de prazer e abrindo em seguida para conferir — sempre conferindo — se ele continuava sendo bonito de segurar.
Na terceira, não havia mais orgulho no estoque. O por favor saiu de um andar dele que não tinha mobília, fundo, rouco, sem nenhuma dignidade sobrando — e era exatamente essa a moeda que ela estava esperando. Ela se debruçou, colou a boca na orelha dele, e deu a ordem com a voz mais doce do mundo, que era também a mais absoluta:
— Agora. Goza pra mim, meu macho dominado. Todo meu.
Ele explodiu com ela agarrada nele, e o gemido dos dois saiu junto, trançado, sem hierarquia nenhuma — nem dono, nem dona, nem regra número coisa alguma: só dois bichos trêmulos agarrados no mesmo naufrágio, afundando de mãos dadas com o navio que eles mesmos tinham furado.
Depois, ela soltou os pulsos dele e beijou cada marca leve que o cinto deixou — um beijo por marca, contabilidade de outra moeda. Abriu a fivela da coleira com o mesmo cuidado com que a tinha fechado, porque cerimônias que começam não terminam sozinhas: precisam ser desfeitas pela mesma mão, no mesmo silêncio, senão ficam assombrando a casa. Pousou o couro na mesinha. Deitou no peito dele.
Por um longo tempo, ninguém falou. O quarto foi voltando devagar a ser um quarto.
— E aí? — perguntou ela, enfim. A voz tinha desabotoado o personagem inteiro; era pequena de novo, dela de novo, quase menina. — O que você sentiu?
Ele olhou o teto, procurando a palavra exata entre as várias disponíveis — vertigem, fome, alívio —, e escolheu a verdadeira:
— Confiança.
Ela sorriu contra a pele dele. Ele sentiu o sorriso antes de ouvir a resposta.
— Engraçado. — A unha dela traçou um círculo lento no peito dele, fechando o circuito da noite. — Eu senti poder. — Pausa. O círculo parou. — A gente devia se preocupar com a nossa saúde mental, sabia?
— Depois — disse ele, puxando-a para cima de si. — Agora fala de novo.
— O quê?
— Meu macho dominado.
Ela riu — a risada dela, a de verdade, escandalosa, viva, sem personagem nenhum por dentro — e esticou o braço para a mesinha, recuperando a coleira com dois dedos:
— Regra número quatro, lindo. Isso agora só de joelhos.
Ele já ia descendo da cama — sem vergonha nenhuma, o que dizia muito sobre o estrago da noite — quando ela o segurou pelo ombro, o segurou rindo, e o recostou de volta no travesseiro como quem guarda um troféu na estante.
— Hoje não. Hoje acabou. — Ela se aninhou, a boca na clavícula dele, e ele já estava quase dormindo quando a sentença chegou, sussurrada, com a agenda brilhando na voz: — Mas vai treinando a posição. Joelho, meu bem, foi só a metade da lição... — os dedos dela desceram devagar pela coluna dele, um degrau por vértebra, até parar na base, em cima do futuro — ...você tem quatro apoios.

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