Ardilune
☾ 8 min de leitura
Capa — Olhos Vendados
Ardilune · Contos · Nº 10

Olhos Vendados

— Hoje você não olha. Hoje você acredita.

"Você olha demais", ela disse uma vez, pegando-o em flagrante pela milésima vez — ele do outro lado da sala, o queixo apoiado na mão, os olhos fazendo o inventário dela sem nenhuma discrição. "Fica me estudando. Gravando."

Ele jurou que era elogio. Ela aceitou o elogio — e arquivou a informação, como arquivava tudo, na pasta de uso posterior que era o arquivo mais perigoso da casa:

"Um dia eu ainda vou confiscar esses olhos. Só pra você aprender a me ver com o resto."

Depois do casamento, ela repetiu a ameaça de olhos fechados, sonolenta, e ele fingiu que não ouviu. Fingir que não ouvia nunca tinha salvado ninguém naquela relação.

O confisco aconteceu numa sexta-feira à noite, sem mandado e sem aviso.

Ela abriu a porta segurando um lenço de seda escuro, comprido, dobrado sobre as duas mãos estendidas como uma oferenda — ou como uma sentença, dependendo do tribunal. Não disse boa-noite. Disse:

— Última paisagem. Aproveita.

E deixou que ele olhasse. Cinco segundos generosos, cronometrados na cabeça dela: o vestido leve, os pés descalços, o cabelo solto, o sorriso de quem já jogou a partida inteira de cabeça na véspera e só veio executar os lances. Ele olhou como quem bebe. Então ela ficou nas pontas dos pés, passou o lenço pelos olhos dele, amarrou atrás com um nó firme — dois dedos de folga, ela testou, cuidadosa, o cuidado de sempre embaixo da crueldade de sempre — e o mundo dele acabou em veludo.

— Regras. — A voz dela veio da esquerda. Depois de trás. Ela já estava circulando, e ele já estava perdido. — Você não tira a venda. Você não fala, a não ser pra responder o que eu perguntar. E a mais importante: você não adivinha. Você sente. Se eu perceber que você tá tentando enxergar através do pano, eu paro tudo e a gente recomeça do zero. — Uma pausa, e ele sentiu o hálito quente dela na nuca, a primeira aparição do novo mundo: — E eu adoro recomeçar do zero.

✦ ✦ ✦

Ela o guiou pela casa como se ele fosse um navio grande demais para um porto pequeno — dois dedos no pulso, só isso, nenhuma outra âncora, nenhum outro instrumento de navegação. Sem os olhos, o apartamento que ele conhecia de cor virou território estrangeiro: a quina do sofá surgiu do nada como um recife, o corredor dobrou de comprimento, as distâncias mentiram. E o quarto — quando chegaram — anunciou-se pelo cheiro, três notas empilhadas: a vela que ela só acendia em ocasiões, o perfume dela em dose recém-aplicada, lençol limpo. Um quarto preparado. Ele estava sendo esperado por uma cenografia inteira que nunca veria.

— Senta. Beira da cama. Mãos nos joelhos. — E quando ele obedeceu: — Agora começa a prova. Cada coisa que eu fizer, você me diz o que é. Acertou, eu continuo. Errou... — o riso dela, baixinho, a três palmos, impossível de localizar — ...eu mudo de assunto na melhor parte.

A primeira foi fácil: gelo. O cubo desceu pela lateral do pescoço dele, devagar, derretendo pelo caminho, deixando uma trilha que o ar da noite transformou em segundo toque — e ele disse gelo com a voz já alterada, já mais grave um tom.

A segunda foi covardia: o calor da boca dela a um milímetro da pele, sem tocar, subindo pelo braço como um clima. Presença, ele arriscou, e ela aceitou com um hm genuinamente impressionado, o som de uma examinadora revisando a nota para cima.

A terceira ele errou — de propósito ou não, nem ele soube. Uma coisa macia arrastando pelo peito, leve demais para mão, larga demais para pluma. Pincel? Quando ele disse pincel, ela parou na hora, conforme prometido, na melhor parte — e a coisa macia se recolheu levando o mistério: era o cabelo dela, solto, varrendo-o em câmera lenta.

— Que pena — disse, sem pena nenhuma no estoque. — Tava indo tão bem.

— Selene...

— Shh. Regra dois. — Os dedos dela fecharam de leve sobre a boca dele. E ficaram. — Você fala quando eu perguntar. E eu não perguntei.

✦ ✦ ✦

Foi mais ou menos nesse ponto que ele entendeu a verdadeira arquitetura da noite: a venda não era sobre tirar a visão. Era sobre entregar a narração.

Vendado, ele só sabia do mundo o que ela contasse — e ela contava errado de propósito. Anunciava um beijo e entregava uma mordida. Prometia a boca e dava só o hálito. Avisava "vou pra esquerda" e aparecia na direita, rindo, onipresente, a única emissora de notícias de um país inteiro — até ele desistir do mapa e aceitar o oceano. Render-se não foi decisão: foi naufrágio administrado, e o capitão afundou agradecendo.

Quando ela finalmente o despiu — e levou uma era nisso, cada botão um evento sem imagem, só pressão, temperatura e som —, o corpo dele já tinha aprendido a lição inteira: a pele ouvindo, os ouvidos tateando, os sentidos todos fora dos seus cargos e funcionando melhor na bagunça.

— Deita. No meio. — A cama afundou de um lado. Depois do outro. Ela ajoelhou por cima dele sem encostar, e ele sentiu o calor do corpo dela pairando a centímetros, um teto vivo, uma tempestade armada que não caía. — Pergunta da rodada final. O que eu tô vestindo?

Ele abriu a boca para dizer o vestido — e congelou.

O tecido não farfalhava mais. O ar tocava nele de um jeito diferente, sem intermediário. E o perfume estava mais perto da pele do que pano nenhum permitiria.

— Nada — disse ele, rouco. — Você não tá vestindo nada.

O silêncio durou dois segundos deliciosos, o tempo de uma examinadora assinar um diploma.

— Viu como você enxerga bem — sussurrou ela.

E desceu.

✦ ✦ ✦

O que se seguiu, ele nunca conseguiu pôr em ordem cronológica — a memória guardou por sentido, não por sequência, arquivada nos departamentos novos que a noite tinha inaugurado.

O tato: ela por toda parte, coxas, boca, o peso quente dela descendo e o encaixe arrancando dos dois o mesmo gemido fundo, afinado em uníssono. O ouvido: a voz dela no comando absoluto, colada e sem rosto — agora sente... não pensa, sente... quem tá te cavalgando é uma voz, presta atenção nela... O olfato: perfume e suor e ela, a assinatura que ele reconheceria de olhos fechados num estádio lotado — e a frase deixou de ser figura de linguagem naquela noite. E um sentido novo, sem nome no dicionário, que só existe no escuro: o de pertencer inteiro a uma presença que se recusa a virar imagem.

Ela conduziu tudo, do primeiro ao último movimento, acelerando e recuando conforme leituras que só ela fazia — o fôlego dele, o aperto das mãos dele no lençol, obedientes, cegas e cada vez mais sábias. E perto do fim, quando os dois já tremiam dentro do mesmo terremoto, os dedos dela acharam o nó atrás da cabeça dele.

— Agora — disse, puxando a seda fora de uma vez —, olha pra mim.

A primeira imagem depois do exílio: ela por cima, desfeita e soberana, o cabelo colado na testa, os olhos cravados nos dele sem piscar, o quarto inteiro de vela e sombra emoldurando — e foi essa imagem, a recompensa do confisco, que o despedaçou. Ele gozou olhando. Ela gozou sendo olhada. E por um longo momento ficaram ali, tremendo, presos no primeiro contato visual mais obsceno da história dos contatos visuais.

✦ ✦ ✦

Depois, ela recolheu o lenço da bagunça do lençol e o dobrou com cuidado cerimonial, quina com quina, como se guarda uma ferramenta de estimação que ainda tem serviço pela frente.

— E aí? — perguntou, deitando no peito dele. — Sentiu minha falta? Da imagem, digo.

Ele pensou. A resposta veio com a sinceridade esquisita de quem acabou de desembarcar de uma viagem longa:

— O pior foi descobrir que não. — Ele beijou a testa dela. — Você sem imagem continua sendo você. Aliás... piora. Fica em todo lugar ao mesmo tempo.

— Eu sou em todo lugar ao mesmo tempo. — Ela se aconchegou, satisfeitíssima, colecionadora com a peça nova na estante. — A venda só tira o seu álibi.

Ele riu — e o riso saiu alto, solto, barulhento, três horas de tensão desaguando de uma vez. Ela ergueu a cabeça, ficou olhando para ele rir com um interesse súbito, e ele viu a ideia nascer nos olhos dela em tempo real, o que era sempre o momento mais bonito e mais perigoso de qualquer noite.

— Sabe o que eu reparei hoje? — disse ela, devagar. — Sem os olhos, você fica mais barulhento. Geme dobrado. Fala, agradece, xinga... parece torcida organizada. — Ela deitou de volta, e a voz veio já embalada para presente: — Adoro. E é exatamente por isso que um dia eu vou te proibir.

— Proibir... de gemer?

— Dorme, lindo. — Ela apagou a vela com um sopro, e a última frase da noite saiu do escuro, mansa como toda ameaça dela: — Aproveita o barulho enquanto ele é seu.

Para levar a história para a vida real
O catálogo que inspira estes contos
Conhecer a Lovense →
Este conto contém link de afiliado. Posso receber comissão por compras qualificadas, sem custo extra para você.
Próximo · Nº 11
A Regra do Silêncio
Continuar a série →
← Nº 9 · O Brinquedo

Não perca o próximo

Contos novos, em breve narrados. Direto no seu e-mail.

✓ Você está na lista.