Ardilune
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Capa — À Distância
Ardilune · Contos · Nº 24

À Distância

— Quatrocentos quilômetros. Nunca estive tão em cima de você.

"Eu já comprei o tripé."

Na véspera da viagem, com a mala aberta na cama e a etiqueta de despacho da companhia ainda colada da viagem anterior, ela montou o tripé no canto do quarto com a concentração de quem arma uma forca — três pernas de alumínio, o celular velho dela de câmera, o enquadramento testado e retestado enquanto ele fingia ler no travesseiro, os olhos indo do livro para ela por cima da página.

— Deita mais pro meio — pediu ela, olhando a telinha, não ele. — Isso. Agora finge que tá sofrendo. — Ele fingiu. Ela avaliou o resultado com um estalo de língua de diretora: — Não precisa fingir a partir de quinta.

Ela partiu de manhã cedo, deixando para trás o cheiro do perfume no corredor, o carregador esquecido na tomada da sala — e, no canto do quarto, montada, paciente e apontada para a cama, a testemunha de alumínio.

✦ ✦ ✦

O regulamento chegou quando o avião dela ainda taxiava, gravado no saguão de desembarque, com aviso sonoro de esteira ao fundo:

"Protocolo dos três dias. Um: suas mãos estão confiscadas — de você mesmo, digo. Nenhum toque de dono. Quem toca em você essa semana é a funcionária, e a funcionária só liga quando EU ligar. Dois: a câmera fica ativa das dez da noite à meia-noite, todas as noites. Eu olho quando eu quiser — você nunca vai saber quando. Três: você dorme sem roupa e sem coberta até segunda ordem, porque eu gosto de abrir o app e TER o que ver. Boa semana, meu amor. Eu tô mais perto do que o mapa diz."

A primeira noite foi um estudo de paranoia deliciosa. Ele deitou nu às dez em ponto, obediente ao milímetro, e passou duas horas sem saber se era observado — o pontinho da câmera aceso, indiferente, sem confirmar nada, sem negar nada. Nada aconteceu. À meia-noite, o celular vibrou uma vez:

"Assisti 20 minutos. Você coça o nariz demais. Dorme."

Ele dormiu — quer dizer, deitou de olhos fechados com o corpo inteiro acordado, atento a um comando que podia vir de qualquer fuso.

Na segunda noite, ela atacou. Às dez e dezessete, no meio de um bocejo, a funcionária ligou sozinha — o cilindro despertando em volta dele sem nenhum aviso, e ele gemeu alto para o quarto vazio, agarrando o lençol, enquanto o celular acendia na mesinha com a legenda em tempo real:

"Boa noite. Jantar do evento tava um tédio. Você é melhor que sobremesa."

Ela o operou por quarenta minutos de outro fuso de humor — acelerando quando ele relaxava, pausando quando ele subia, uma vez parando oito minutos inteiros em que ele ficou imóvel, suando, sem saber se tinha acabado ou se ela tinha ido tomar banho no meio do próprio crime —, e encerrou sem alvará, claro, com um áudio de despedida em voz de hotel, baixinho e cruel:

"Percebeu o que aconteceu? Eu tô a quatrocentos quilômetros e você tá mais preso do que se eu tivesse sentada em cima. Guarda essa informação... amanhã eu quero ela madura."

✦ ✦ ✦

Na terceira noite, quinta-feira, a mensagem veio às nove e meia e mudava o formato inteiro:

"Hoje não é câmera de vigilância. Hoje é videochamada. Dez em ponto. Você na cama, a funcionária posicionada, o tripé enquadrando TUDO. Do meu lado... você vai ver do que um quarto de hotel é capaz. Atende no primeiro toque."

Ele atendeu no primeiro toque. A imagem abriu e o fôlego dele fechou: ela no meio de uma cama king de hotel, cercada de travesseiros brancos demais, de camisola nova — comprada à tarde, ele saberia depois, junto com o resto —, o cabelo solto, um abajur só. Ao lado dela, enfileirados sobre o edredom como instrumentos de orquestra à espera do maestro, o Osci e o vibrador de viagem. Ela olhou para a câmera — para ele — e sorriu o sorriso de véspera de coroação.

— Regra da noite: espelho. — A voz dela veio íntima pelo fone, na orelha dele, como se o hotel fosse do lado, como se os quatrocentos quilômetros fossem um boato. — Tudo que eu fizer em mim, eu faço em você pelo app. Meu ritmo é o seu. Se eu parar, você para. E a gente só termina... — ela puxou a alça da camisola pelo ombro, devagar, cerimonial — ...junto.

✦ ✦ ✦

Ela começou por ela — e ele entendeu nos primeiros dez segundos que os três dias inteiros tinham sido o ensaio da orquestra, não o concerto. Ela se tocou para a câmera devagar, os joelhos abertos para o enquadramento, narrando com a boca colada no microfone do fone — tá vendo onde meu dedo tá? sente aí — e o polegar dela, na mesma frase, acordava a funcionária nele no mesmo compasso, o cilindro chupando no ritmo exato da mão dela, espelho por fibra ótica, quatrocentos quilômetros de fidelidade absoluta, sem um milissegundo de atraso entre o prazer dela e a obrigação dele.

— Fala pra câmera — ordenou ela, os dedos trabalhando, a voz já desfeita nas bordas. — Fala o que você é essa semana.

— Seu. Operado por você. Trancado por você... — a máquina subiu um nível no meio da frase e a frase desabou — ...porra, Selene...

— Continua. Tá lindo. Implora pra câmera, que hoje a câmera sou eu.

Ele implorou para a câmera. Sem vergonha nenhuma — a vergonha tinha ficado em algum lugar do segundo dia, coçando o nariz —, e ela recompensou cada frase suja subindo o próprio ritmo e o dele, o Osci zunindo agora no clitóris dela, a camisola nova aberta e inútil, os dois gemendo um no ouvido do outro por cima da tecnologia inteira, até ela decretar o fim com a última lucidez disponível no aparelho:

— Junto. Na contagem minha. Três... dois... — e não disse um: disse o nome dele, quebrado no meio, e gozou apertando os joelhos na própria mão enquanto o app dele saltava para o máximo, e ele explodiu na boca da funcionária com o grito represado de três dias, os dois desabando em cidades diferentes no mesmo segundo, sincronizados até no silêncio de depois.

Na tela, ela voltou para o enquadramento ofegante, o queixo apoiado na mão, olhando ele derretido a quatrocentos quilômetros com uma ternura de dona de fábrica vendo a linha rodar sozinha, perfeita.

— Fibra ótica — disse, com o resto de voz. — Melhor invenção do século. Depois do meu polegar.

✦ ✦ ✦

Ela voltou no sábado ao meio-dia. Ele buscou no aeroporto — protocolo antigo dos dois: abraço comprido na esteira de desembarque, a mala girando esquecida atrás, dando voltas sozinha. No carro, ela dirigiu a conversa como sempre dirigia tudo, contando do evento, do tédio, da colega de mesa que roncava em palestra — e só na entrada da garagem, com o motor já desligado, abriu a bolsa e tirou uma caixinha de veludo escuro, comprida, com o adesivo do free shop ainda na base.

— Comprei uma coisa. No aeroporto de lá, ontem, pensando em você. — Ela não entregou a caixinha: segurou-a, girando-a devagar nos dedos, deixando o veludo trabalhar a imaginação dele. — Três dias operando você de longe me ensinaram uma coisa: eu não preciso estar perto pra te ter. Mas eu quero que o mundo inteiro... — ela olhou para ele, e havia um brilho novo ali, sério e brincalhão ao mesmo tempo — ...sem saber de nada, veja que você tem dona.

— O que tem na caixa, Selene?

— Amanhã você descobre. De joelhos, de preferência. — Ela guardou o veludo na bolsa e saiu do carro como quem encerra expediente: — Traz o meu carregador que ficou na sala. A partir de amanhã... você vai precisar das duas mãos livres.

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