
"Você nunca, nunca, mente pra dona. Nem por omissão."
O crime foi descoberto numa quarta-feira à noite, por uma testemunha que não sabia mentir: o aplicativo.
Ela estava no sofá, mexendo no celular com uma perna por cima da dele, quando abriu — por hábito de gestora, o mesmo que a fazia conferir extrato de cartão — o painel da funcionária. E lá, no histórico de sessões, entre os registros que ela mesma tinha assinado com o polegar, havia um órfão: terça-feira, 14h32, duração 22 minutos. Terça-feira, 14h32, ela estava na fila do banco. Ela lembrava da fila do banco. Ela lembrava, inclusive, de ele ter respondido "tranquilo, tô trabalhando" às 14h40.
Ela não disse nada na hora. Isso foi o pior. Apenas travou a tela, ajeitou a perna por cima da dele, e perguntou com a voz mais doce do repertório inteiro:
— Amor... alguma coisa que você queira me contar? Pensa direitinho. Você tem uma noite.
Ele não contou. Apostou que não era nada. Perdeu — e a série histórica das apostas dele contra ela deveria tê-lo avisado.
A intimação chegou às 8h02 da manhã seguinte, em áudio de tom monocórdio, o mais assustador de todos os tons dela — porque os outros tinham fome, e esse tinha só protocolo:
"Bom dia. Fica intimado: sexta-feira, vinte horas, mesa da cozinha, audiência de instrução e julgamento. Acusação: violação da regra dois da coleira — uso não autorizado do que é meu — em concurso com violação da regra três: mentira por omissão, mantida mesmo após prazo de graça. Compareça de banho tomado. A defesa pode falar... mas eu, no seu lugar, já ia treinando o 'confesso'."
Os dois dias até a audiência foram um deserto arquitetado. Ela não tocou nele — nem de passagem, nem de esbarrão, uma engenharia de ausência num apartamento de setenta metros quadrados, o que exige talento. Conversou normalmente, cozinhou junto, riu de série na TV, e não encostou um dedo: o corpo dela virou um país que tinha fechado a fronteira, visível do outro lado do rio, iluminado à noite, absolutamente inalcançável. Na sexta às vinte horas, quando ele se sentou à mesa da cozinha, já estava condenado havia quarenta e oito horas e sabia.
Ela ocupou a cabeceira com os óculos de ler e uma pasta — a pasta, impressa: o extrato do aplicativo com o registro órfão marcado em amarelo, a mensagem do "tranquilo, tô trabalhando" impressa embaixo, e os termos da coleira anexados como legislação de regência.
— O réu tem a palavra — abriu ela, sem cerimônia de instalação.
— Confesso. — Ele tinha treinado, conforme a sugestão da própria intimação. — Os dois artigos. Sem atenuante.
— Sem atenuante não: com agravante. — Ela tirou os óculos, e por trás da juíza apareceu, meio segundo, a mulher — e a mulher estava se divertindo horrores, o processo inteiro sendo o melhor presente que ela tinha ganhado no mês. — Você mentiu com a MINHA coleira no pescoço. Isso não é infração, meu amor. Isso é heresia. — Os óculos voltaram. A sentença foi lida de pé:
*SENTENÇA — autos da coleira, vol. XXVI*
Sete dias de pena, regime fechado, a contar de hoje:
a) Confisco total do gozo. O réu não goza por mão própria, alheia, mecânica ou milagrosa.
b) Edging diário administrado pela juíza, por aplicativo, em horário que o réu não escolhe.
c) Prestação de serviço noturno: toda noite, trinta minutos de boca e mãos — só pra ela. O réu serve e não recebe.
d) Concluída a pena, a progressão de regime fica a critério exclusivo do juízo. E o juízo avisa: não espere prêmio no dia sete. Pena cumprida não é mérito — é obrigação.
— Assina — disse ela, empurrando a caneta. — E anota a data. Você vai querer lembrar dessa semana pelo resto da vida... eu vou garantir pessoalmente.
Ele assinou. E o que começou ali não parecia castigo nas primeiras horas — parecia nos dias, na acumulação, na aritmética cruel do tempo.
O edging vinha sem aviso, fiel à alínea b: sábado às 11 da manhã com café na mão; domingo às 23h47 quando ele já achava que tinha escapado do dia; segunda no minuto exato em que sentou para almoçar — a funcionária despertando nele por polegar remoto, subindo-o até a borda com precisão de carrasco concursado e desligando na borda, sempre, sem exceção, deixando-o trêmulo sobre as próprias pernas no meio do próprio almoço. E toda noite, o serviço: ela deitada como uma paxá, ele entre as pernas dela por trinta minutos cronometrados no celular dela, a boca dele trabalhando enquanto o corpo dele implorava por qualquer coisa e recebia, pontualmente, nada.
— Sabe o que é o mais bonito da pena? — comentou ela na quarta noite, gozando pela segunda vez na boca do condenado, os dedos enroscados no cabelo dele com carinho de dona de bicho premiado. — Você tá servindo melhor do que nunca. A culpa lapida, meu amor. Eu devia te processar mais vezes.
O dia sete caiu num sábado. Ela conduziu a progressão de regime como audiência de custódia: ele nu na cama, ela vestida na beirada — a assimetria de sempre, agravada pela semana inteira de deserto —, o celular com o app aberto entre os dois como um processo físico, encadernado.
— Pena cumprida — reconheceu ela, percorrendo o corpo dele com o olhar de perita: a tensão de sete dias visível em cada músculo, o pau duro desde o café da manhã, o homem inteiro reduzido a uma súplica com coleira. — Comportamento exemplar. Serviço com louvor. Então vamos à progressão... — ela ligou a funcionária no nível médio e ele gemeu como quem retoma um soluço de três dias — ...com a ressalva da alínea d, que você assinou: não espere prêmio.
Ela o subiu à borda em quatro minutos — o caminho estava pavimentado de semana inteira — e ali, exatamente ali, no ponto em que ele sempre ouvira "para", ela disse outra coisa:
— Goza.
E desligou a máquina no primeiro espasmo.
O que se seguiu foi a coisa mais cruel e mais pedagógica de vinte e seis volumes: o orgasmo dele acontecendo sozinho, abandonado no meio do salto, escorrendo sem clímax — o corpo despejando sete dias sem receber os juros, um gozo arruinado de propósito, assinado, jurisprudencial, com número de processo. Ele xingou o teto. Ela assistiu com o queixo na mão, fascinada como quem confere a execução de um projeto que saiu na planta exata.
— Isso — disse ela, apontando o estrago com a cabeça — é pena. Cumprida na íntegra. — Então tirou a blusa pela cabeça, e o resto, e subiu nele ainda trêmulo, encaixando-o dentro dela sem cerimônia, duro de novo em segundos porque o corpo dele não acreditava na própria sorte. — E isso... — ela começou a cavalgar, devagar, funda, os olhos nos olhos dele — ...é a juíza, fora do expediente, cuidando do que é dela. São coisas separadas. Aprendeu?
— Aprendi. Caralho. Aprendi.
— Então agora goza de verdade, meu bicho. — Ela puxou a coleira, o aço mordendo a nuca, o ritmo desabando. — Goza comigo, que é o único jeito autorizado nessa casa.
Ele gozou de verdade — inteiro, escandaloso, com juros e correção monetária — e ela junto, apertando-o por dentro e por fora, a mão no cordão até o último tremor.
Depois, desmontada em cima dele, ela ouviu o coração dele voltar do exílio, e ele decidiu — porque a regra três agora morava nele, instalada — confessar o resto:
— Selene. Aquela terça. — Pausa. — Eu sabia do histórico do app.
— Eu sei que você sabia. — Ela nem levantou a cabeça do peito dele. — 14h32, meu amor. Dez minutos depois de eu sair pro banco. Você não caiu no crime... você protocolou o crime. — Ela ergueu o rosto, apoiou o queixo nele, e os dois se olharam com o sorriso de quem foi flagrado amando o próprio flagrante. — Você queria o processo.
— Eu queria a juíza.
— Hm. — Ela voltou a deitar, satisfeita, e ficou um tempo traçando o cordão de aço com a unha, elo por elo, pensando alto no escuro: — Então o meu bandido gosta de consequência... — a unha parou; o sorriso dele congelou de bom pressentimento — ...que ótimo. Porque castigo por aplicativo é consequência de estagiária. Semana que vem eu te mostro a titular. — Beijo no peito, voz já de sono: — Dor bem dada, meu amor, é outro departamento. E eu ando estudando.

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