Ardilune
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Capa — O Leilão
Ardilune · Contos · Nº 34

O Leilão

— Lote único. Lance inicial: tudo. Lance final: o que a dona quiser.

"Eu vou leiloar o tributo... só pra Roma chorar de inveja do que eu tenho."

Ele a flagrou numa quarta à noite, no escritório de casa, com o fone de ouvido meio caído e uma tela cheia de ondinhas de áudio — cortando, colando, ouvindo trechos e rindo sozinha, aquele riso baixinho de bastidor que em trinta e três volumes nunca anunciou nada barato.

— Que que você tá editando?

— Vozes. — Ela pausou a tela com um dedo, sem nenhuma pressa de esconder, o que era pior do que esconder. — Sábado você conhece todo mundo. — E voltou para o fone, e o riso recomeçou, e ele passou três dias tentando lembrar onde tinha assinado o consentimento para aquilo — tinha, claro; nessa casa sempre tinha; era exatamente isso que deixava o resto delicioso e não outra coisa.

✦ ✦ ✦

O catálogo veio por debaixo da porta na sexta, impresso em papel grosso, com a diagramação caprichada de quem se divertiu horrores no processo:

*LEILÃO PARTICULAR — sábado, 21h — lote único*
LOTE 001 — Exemplar masculino adulto, de coleção privada. Dentição boa, lombo firme, garupa premiada em concurso (vol. XXX). Obediente sob comando de voz, estalo e rédea. Treinado em: espera, silêncio, serviço, doma e humilhação (certificados no arquivo da casa). Único dono. Estado de conservação: usado — com amor, mas usado. Manias: geme alto, agradece demais, apaixona fácil pela leiloeira.
Visitação: não há. Lances: presenciais. O lote comparece vendado, por dignidade do lote.
Regras de sempre: três toques encerram o pregão. Amarelo suspende a sessão. O martelo é meu.

No sábado às nove, o "tablado" era o banco comprido da cozinha, forrado com uma manta dobrada — ela tinha testado a estabilidade com o próprio peso, pulando duas vezes, porque produção era com ela e ela não terceirizava —, posicionado no centro da sala com um abajur apontado como spot de palco. Ele subiu nu, vendado com a seda veterana, de joelhos na manta, as mãos atrás das costas. E esperou, ouvindo a sala: o clique do celular dela encaixando na caixa de som, o arrastar de uma cadeira, o tilintar de gelo num copo — gelo? ela tinha feito drinque para a plateia? — e então, sem aviso, o mundo encheu de gente.

Murmúrio. Risadas abafadas. Uma tosse ao fundo. Gente conversando — vozes reais, várias, editadas de sabe-se lá quais áudios de sabe-se lá quais fontes, montadas numa parede sonora de salão cheio. O corpo dele entendeu antes da cabeça e gelou inteiro: plateia. Mentira, ele sabia. Sabia. Mas a venda não sabia, e a pele não sabia, e o pau, traidor de trinta e quatro volumes, muito menos sabia.

— Senhoras. — A voz dela chegou empostada, metálica, levemente distorcida — a leiloeira, personagem completo, salto batendo no piso em círculos ao redor do tablado. — Bem-vindas ao pregão. Lote único esta noite... e eu já aviso: a peça é muito disputada.

✦ ✦ ✦

A inspeção começou sem aviso — e foi a coisa mais perturbadora que o corpo dele já processou em toda a série, porque as mãos que o tocavam eram dela e não eram: uma de cada vez, com perfumes trocados no pulso — um doce, um amadeirado, um cítrico que ele nunca tinha sentido nela —, toques de temperamentos diferentes, uma mão clínica medindo o ombro, uma mão atrevida correndo a coxa, uma unha lenta descendo a espinha enquanto a parede de vozes murmurava aprovação. Três compradoras, dizia a pele dele. Uma, dizia a aliança de fato que era a vida deles. A venda arbitrava o empate a favor do delírio, e cobrava ingresso.

— Abram a boca do lote — ordenou uma voz gravada, e a leiloeira obedeceu à própria edição: dois dedos no queixo dele, o polegar puxando o lábio, a plateia murmurando. — Dentição boa. Consta que a boca tem oito volumes de certificação.

— E o motor? — perguntou outra voz, atrevida, com um riso dentro. — Lote parado a gente não leva.

— Demonstração de motor — concedeu a leiloeira — é praxe da casa.

E a mão dela fechou nele, e o masturbou diante da plateia de fantasmas — devagar, técnica, exibindo o lote em funcionamento enquanto as vozes comentavam ("que barulho ele faz?", "geme, senhora, consta que geme alto", "quero ouvir") e ele gemeu para o escuro, vendado, duro, à venda, mais excitado do que qualquer dignidade explicaria em juízo — e ela parou no limite exato, porque demonstração não é entrega, e anunciou com o martelo batendo na mesinha:

— Abrimos os lances.

✦ ✦ ✦

Os lances subiram como febre: dez mil da voz doce, cinquenta da atrevida, cem mil, duzentos, a parede sonora fervendo, o martelo dela pontuando — "dou-lhe uma... temos trezentos ao fundo? trezentos!" — e ele ajoelhado no meio do pregão, o coração disparado numa vaidade absurda e involuntária: valendo. Sendo disputado. Meio milhão. Oitocentos. Um milhão — a voz cítrica, seca, definitiva, e a sala inteira de mentira prendeu o fôlego de verdade.

— Um milhão... dou-lhe uma... — o martelo pairou; ele parou de respirar — ...dou-lhe duas... — silêncio comprido, cruel, editado à perfeição — ...e VENDIDO... — a pancada seca — ...por um real. À senhora da casa. Que cobriu todos os lances com a única moeda que vale aqui dentro.

A parede de vozes sumiu com um clique. O silêncio verdadeiro voltou à sala. E a voz dela — a dela mesma, sem personagem, morna e perto — chegou junto com a mão que ele conhecia entre todas as mãos do mundo:

— Um real, meu bem. — Ela pingou a moeda na palma da mão dele e fechou os dedos dele em volta, um por um. — Você vale tudo. Mas dono paga o que quiser... essa é a graça de ser dono. — E aí a voz desceu para o registro das grandes noites: — Agora deita no tablado. A arrematante quer estrear a compra.

Ela o estreou ali mesmo, no banco forrado da cozinha promovido a palco: subiu nele ainda vendado, tomou-o para dentro de uma vez — molhada de um leilão inteiro, a leiloeira mais excitada que o lote, sempre foi, em todos os pregões da história — e cavalgou a posse nova com a moeda de um real ainda fechada na mão dele, cobrando em voz alta cada centavo: meu por lance, meu por martelo, meu por nota... fala, lote, fala de quem você é — e ele falou, da senhora, arrematado, quitado, seu — e ela gozou primeiro, rindo do próprio teatro, e o autorizou depois com a fórmula da casa nova: goza pro teu recibo, meu bem — e ele gozou vendado, à venda e vendido, com um real na mão e o resto do mundo em liquidação.

✦ ✦ ✦

A venda saiu junto com o fôlego. A sala era a deles de novo: o abajur torto, a manta amassada, o copo com gelo derretido que tinha sido só dela o tempo todo. Ela trouxe do escritório um papel recém-impresso e o entregou com pompa de tabeliã:

*NOTA DE ARREMATE — lote 001*
Vendido à vista, nesta data, pela quantia certa e ajustada de R$ 1,00 (um real), o lote descrito no catálogo. O arrematante declara conhecer o estado da peça — usado, com amor — e abre mão de garantia, porque garantia é pra quem pretende devolver.
Assinado: a Arrematante. Único lance que sempre valeu.

— Vai pra moldura? — perguntou ele, lendo pela terceira vez.

— Vai pro caderno. Entre a página do casamento dos outros e a da capela. Boa vizinhança. — Ela recolheu a moeda de um real da mão dele, considerou-a contra a luz, e a guardou no próprio decote com um tapinha: — Essa fica comigo. Primeiro dinheiro que esse corpo me rendeu... — o sorriso dela afiou devagar, e ele conheceu o formato de longe: agenda — ...e por falar em render. Compra nova a gente testa, né? Rendimento, capacidade, produção... — ela levantou, já a caminho do banho, e soltou por cima do ombro a frase que abriu o volume seguinte: — Amanhã cedo começa o inventário, meu lote. Dorme bem. Você vai produzir.

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