Ardilune
☾ 16 min de leitura
Capa — O Check-up
Ardilune · Contos · Nº 36

O Check-up

— O prontuário não registra gemido.

A convocação chegou numa terça-feira, deslizando por debaixo da porta com o sussurro seco que só o papel oficial produz — um som pequeno, quase nada, e no entanto ele parou no meio do corredor como quem ouve o próprio nome. O correio interno da casa nunca mais tinha parado desde o primeiro termo. Ele já conhecia o protocolo: não se abre em pé. Sentou.

O papel era espesso, cor de osso, timbrado. No alto, desenhada à mão com uma paciência que ele reconheceu — a paciência dela, a mesma das outras liturgias —, uma serpente enroscada não num bastão, mas numa chave. Abaixo, em letra de fôrma:

*CONVOCAÇÃO — CLÍNICA DA CASA*
*EXAME PERIÓDICO OBRIGATÓRIO*

>

Paciente: o de sempre.
Queixa registrada pela responsável: o corpo do paciente anda guardando mais do que entrega.
Data: sexta-feira, 21h, no quarto — que nessa noite não será o quarto.
Preparo: jejum absoluto de toque por 48 horas. Banho tomado. Roupa fácil de perder.
Conduta: o paciente responde o que for perguntado, despe o que for pedido e não flerta com a equipe médica. Flerte será anotado no prontuário. E cobrado.

>

Ass.: Dra. S.
CRM: a casa toda.

Ele leu duas vezes. Na primeira, sorriu. Na segunda, o sorriso desfez-se sozinho, porque quarenta e oito horas assinadas por ela nunca tinham sido, em volume nenhum, figura de linguagem.

O jejum começou naquela mesma noite. Quarenta e oito horas dentro da própria casa com a mulher que ele não podia tocar: ela cuidou de torná-las longas. Passava por ele nos corredores um centímetro mais perto do que o necessário, deixava o perfume atravessar a cozinha como um recado, dormia ao lado dele com o lençol esticado entre os dois. E ele, que sempre dormia com uma das mãos no quadril dela, passou duas noites de mãos vazias, ouvindo-a respirar, aprendendo na pele o significado clínico da palavra abstinência. Na quinta-feira, ela serviu o jantar de costas e ele reparou no fecho do vestido como quem repara numa ferida. Na sexta de manhã, ela disse apenas:

— Vinte e uma horas. Não se atrase para a sua consulta.

E saiu para o dia como se não tivesse acabado de acender um fósforo dentro de um homem em jejum.

✦ ✦ ✦

Às nove menos cinco, a porta do quarto estava entreaberta, e a luz que escapava pela fresta não era a luz de nenhum quarto. Ele empurrou a porta devagar — e atravessou a fronteira de um país onde não mandava.

O quarto não era mais o quarto. A cama tinha desaparecido sob um lençol branco esticado com cantos de hospital, tão tenso que devolvia a luz como uma superfície de mármore; ele encostou dois dedos, sem pensar, e o tecido resistiu com a firmeza de algo que jurou não guardar vinco de corpo nenhum — ainda. O abajur de todas as noites tinha sido vestido com um pano claro e não iluminava mais: examinava. O resto do cômodo mergulhava numa penumbra de sala de espera, e no centro dela um retângulo de luz precisa caía sobre o lençol como um campo operatório.

Sobre a cômoda, forrada com uma toalha branca, os instrumentos. Enfileirados com uma simetria que não era de casa — era de altar: o par de luvas de látex, ainda dobradas, cor de pele de ninguém; o estetoscópio — de verdade, comprado, funcionando, ele descobriria da pior forma —, enrolado sobre si mesmo como a serpente do timbre; a lanterninha; a fita métrica de costura, enrolada e presa; um cronômetro; um pote pequeno de tampa laranja com etiqueta datilografada, AMOSTRA 001; e o tubo de sempre, o da gaveta, promovido a material hospitalar por uma tira branca onde a letra dela dizia USO CLÍNICO.

O ar cheirava a álcool. Por baixo do álcool, muito ao fundo, o quarto ainda cheirava a eles — e essa camada escondida era a única prova de que aquele território já tinha sido dele também.

Havia uma cadeira. Ele sabia para quem era. Sentou-se e esperou, nu de qualquer autoridade, ouvindo o próprio coração fazer o que o silêncio mandava: acelerar. O silêncio ali tinha a qualidade exata do silêncio das clínicas — um silêncio que sabe o seu nome e vai chamá-lo.

Ela o fez esperar quatro minutos. Protocolares.

Às 21h04, a maçaneta girou.

Jaleco branco, ajustado ao corpo com uma exatidão que nenhum conselho de medicina aprovaria. Óculos de leitura na ponta do nariz. O cabelo preso num coque atravessado por uma caneta, prancheta na mão esquerda — e nenhum sorriso. Nenhum. Ela atravessou o quarto sem olhar para ele, pousou a prancheta na cômoda, alinhou o estetoscópio dois milímetros para a esquerda, e só então sentou-se na cadeira diante dele, cruzando as pernas num movimento que fez o jaleco recuar um palmo acima do joelho, indiferente como só as coisas ensaiadas conseguem ser.

Do outro lado do álcool, chegou até ele o perfume. O dela. O de todos os dias — o único figurino que ela não trocou, e ele entendeu que não era descuido: era a assinatura dentro do disfarce, o fio deixado de propósito para ele não se perder. Confiança total. Você vai reconhecer o perfume.

— Boa noite. — A voz dela também tinha vestido jaleco. Clicou a caneta; o clique correu o quarto como um instrumento de percussão. — Anamnese. O senhor responde apenas o que for perguntado. Idade, eu sei. Peso, eu sei. Histórico: frequência de atividade nas últimas quatro semanas?

— Você estava... — a sobrancelha dela subiu meio milímetro por cima dos óculos — ...a senhora estava presente em todas.

— O prontuário exige a resposta do paciente. Não da acompanhante.

A caneta ficou suspensa sobre o papel, esperando. E ele respondeu — número por número, noite por noite —, e ela anotou tudo sem erguer os olhos, e cada pergunta seguinte descia um degrau a mais na escada da dignidade dele: autoatividade não autorizada, consta reincidência?; ereções inoportunas em ambiente social, frequência semanal?; ao ouvir a palavra que a responsável instalou — não vou pronunciá-la agora, o senhor sabe por quê —, o reflexo persiste?

Ele engoliu em seco. O quarto inteiro ouviu.

— Responda verbalmente, por favor. — Ela virou a página sem pressa. — O prontuário não registra gemido.

✦ ✦ ✦

— Atrás do biombo. — A caneta apontou a porta entreaberta do closet. — Dispa tudo.

Ele levantou-se. Já ia entrando quando a voz o alcançou pelas costas, neutra como uma nota de rodapé:

— Pode manter as meias. — Uma página virou. — Não. Tire as meias também. A clínica tem padrões.

Despir-se sozinho, atrás de uma porta, sabendo-se esperado, foi a primeira crueldade fina da noite: cada peça caindo no escuro do closet soava alta demais, e o corpo dele ia ficando exposto sem testemunha — que é a forma mais estranha de ficar exposto: nu para ninguém, a caminho de nu para ela. Quando voltou ao centro do quarto, a luz do abajur o recebeu na pele como um líquido morno, e ele ficou de pé no campo iluminado, as plantas dos pés no assoalho frio, o resto dele à disposição.

Ela nem ergueu os olhos de imediato. Terminou uma anotação. Depois levantou-se, destacou o estetoscópio da cômoda com as duas mãos — um gesto quase litúrgico, de quem retira um objeto do seu descanso — e pendurou-o no pescoço.

O exame começou. E não era paródia: era um exame. Metódico, competente, gélido. O diafragma do estetoscópio encostou no peito dele frio como um dedo de estátua, e ele estremeceu; ela esperou o estremecimento passar, sem comentário, e escutou. Respira fundo. Segura. Solta. Ele obedeceu — e obedecer à própria respiração comandada por ela era mais íntimo do que qualquer coisa que as mãos pudessem fazer. O metal caminhou pelo peito, ponto a ponto, depois pelas costas — e ele compreendeu, com um vexame quente subindo pelo pescoço, que ela estava ouvindo. O coração dele, sem nenhuma lealdade, contava tudo: corria, tropeçava, denunciava. Ela escutou o tempo que quis. Depois anotou uma palavra só, e ele leu de cabeça para baixo: taquicardia.

Sem susto, a anotação. Sem ternura. Constatada.

Vieram a lanterninha na garganta — mais perto do rosto dela do que ele tinha estado em quarenta e oito horas, a boca dela a um palmo, os olhos dela em tudo menos nos dele —, o reflexo do joelho testado com a lateral da mão, a fita métrica desenrolada com um sibilo de coisa viva e passada no tórax, no braço, anotada. As mãos dela ainda sem luvas, mas já sem dona: mãos técnicas, que tocavam nele como quem toca num corpo qualquer — e era exatamente isso o insuportável. Aquelas mãos conheciam-no de cor. Aquelas mãos eram as cartógrafas do território inteiro. E moviam-se agora sobre ele fingindo mapa nenhum, e a frieza — ele finalmente entendeu, de pé, nu, medido — a frieza não era ausência de desejo. Era desejo com método.

Ele estava duro fazia dez minutos. A equipe médica não tinha notado.

Não notar era o método.

— O paciente apresenta — disse ela afinal, e os olhos desceram pela primeira vez até a evidência, com o interesse exato de quem lê um hemograma — ereção inapropriada em ambiente clínico. — Clique da caneta. Anotação. — Reincidente.

E então ela foi até a cômoda e calçou as luvas.

O primeiro estalo do látex soou no quarto como algo sendo decidido. O segundo, como algo sendo assinado. Ela flexionou os dedos dentro da segunda pele, cor de pele de ninguém, e olhou para ele por cima dos óculos.

— Exame físico dirigido. Deite-se. — E enquanto ele se deitava no lençol tenso demais, que recebeu o corpo dele com uma frieza de mármore e foi aquecendo devagar, rendendo-se ao peso, ela acrescentou, do fundo da sua neutralidade: — A clínica agradece a colaboração. E informa que a parte fácil acabou.

✦ ✦ ✦

As mãos enluvadas o percorreram inteiro com uma minúcia indecente de tão decente. Apalparam. Pesaram. Ela pegou nele com dois dedos e um polegar, ergueu, examinou de um lado e do outro na luz do abajur como quem examina uma peça de museu recém-chegada — e o látex, que devia ser barreira, era amplificador: cada ponto de contato ficava mais nítido por ser mediado, mais obsceno por ser clínico. A fita métrica fez o serviço que fez. O número foi anotado sem nenhum comentário — o que era pior do que qualquer comentário.

— Sensibilidade — anunciou ela, e testou. Ponto por ponto. A face interna da coxa. A dobra da virilha. A base. O freio, com a polpa de um dedo só, uma vez, devagar. Ele fechou as mãos no lençol e o lençol rangeu de esticado.

— O prontuário — lembrou ela, sem erguer os olhos — não registra gemido.

Ele reteve o gemido. O gemido ficou dentro, virando temperatura.

Quando ele já era uma tábua de nervos esticados sobre cantos de hospital, ela alcançou o tubo de etiqueta branca. USO CLÍNICO. Abriu a tampa com o polegar — o pequeno estalo plástico, o cheiro adocicado e neutro do gel por cima do álcool — e disse, no tom exato de quem pede para respirar fundo:

— Toque retal. Protocolo da queixa principal. — Uma pausa do tamanho de uma vertigem. — Joelhos ao peito.

Ele obedeceu devagar, e obedecer foi um segundo despir-se, mais fundo que o primeiro. Naquela posição não havia mais postura possível, nem charme, nem defesa: havia um homem dobrado sobre si mesmo, aberto, e uma mulher de jaleco à beira da cama. Ela deve ter visto a vertigem passar nos olhos dele, porque concedeu — única esmola da consulta inteira — uma frase morna, dita por cima dos óculos, os olhos finalmente nos dele:

— O senhor está em excelentes mãos. Consta do prontuário. — E, mais baixo: — Trinta e cinco volumes de consta.

O gel estava frio na luva e foi aquecendo nela antes de tocá-lo — ela esperou, ele percebeu que ela esperou, e essa espera de dez segundos foi mais devastadora que o toque. Então o dedo entrou. Com competência de quem estudou — ela tinha estudado, era evidente, com a mesma seriedade com que estudava tudo o que pretendia dominar —, devagar, sem hesitação e sem pressa, um milímetro de cada vez, dando ao corpo dele o tempo exato de parar de resistir. E encontrou.

O que procurava.

O gemido proibido nº 1 saiu inteiro, rasgado, e ecoou naquele quarto de superfícies duras — lençol tenso, assoalho nu, instrumentos de metal — que devolveu o som para ele sem misericórdia, límpido, para que ouvisse a própria rendição em alta fidelidade.

— Anotado — disse ela.

E massageou. Por dentro. Rítmica, precisa, imperdoável, o pulso dela firme e o resto dela imóvel, narrando baixinho no seu jargão de liturgia: responsivo... altamente responsivo... o paciente vai gotejar, é esperado. Ele gotejou. Um fio lento e claro sobre o próprio ventre, brilhando na luz de exame, e ela observou o fenômeno com aprovação científica e não tocou nele — deixou escorrer, deixou que ele sentisse escorrer, que era pior e era melhor. Gemido proibido nº 2. Nº 3. As mãos dele desfizeram os cantos de hospital, puxaram o lençol para fora do mundo, e o quarto inteiro rangeu junto — a cama, o assoalho, a própria luz pareceu tremer no pano do abajur.

E quando ele estava a um fio — um fio — de resolver a consulta sozinho, ela retirou o dedo. Devagar como entrou.

O vazio que ficou tinha batimento.

Ela descalçou a luva com um terceiro estalo — o de encerramento — e apanhou o pote de tampa laranja.

— Coleta de amostra. — Pousou o pote na mão dele, dobrando os dedos dele em volta, um por um, com a mão já sem luva, já quente — e essa foi a primeira pele dela na pele dele em quarenta e oito horas, e nenhum dos dois comentou o abalo sísmico. Ela pegou o cronômetro. Recuou. Sentou-se na cadeira. Cruzou as pernas. — O senhor tem cinco minutos. Método: manual, próprio. A equipe médica observa.

Clique do cronômetro.

— Por rigor científico.

E ele se tocou diante dela. Diante da médica de jaleco e óculos que era a mulher da vida dele e não era — e não ser era o abismo onde a excitação morava. A princípio com vergonha, os olhos fugindo; depois, conforme os segundos caíam no cronômetro, com uma entrega raivosa, os olhos nos dela, transformando a coleta em depoimento. E viu. Aos três minutos, viu o joelho dela começar a balançar, um pêndulo mínimo, involuntário. Aos quatro, viu a caneta parar de anotar — suspensa sobre o papel, esquecida, o prontuário em branco recebendo nada. Aos quatro e meio, viu a língua dela passar no lábio de baixo, lenta, sem licença de conselho nenhum.

A clínica estava rachando. Ele gozou dentro da rachadura.

Aos quatro minutos e cinquenta segundos, no pote, olhando para ela — e o gemido proibido nº 4 saiu inteiro, longo, impune, porque a doutora, pela primeira vez na noite, tinha esquecido de anotar.

✦ ✦ ✦

Ela levantou-se. Recompôs o semblante peça por peça — ele viu a reconstrução acontecer, e viu que custava. Recolheu o pote da mão dele, tampou, ergueu-o contra a luz do abajur e examinou o conteúdo em contraluz com a testa levemente franzida, prancheta na outra mão, o retrato perfeito da ciência.

E então, num único movimento que demoliu a clínica inteira e não teve nada de súbito — foi lento, foi deliberado, foi olhando para ele —, destampou o pote de novo. Mergulhou o dedo.

E provou.

Os olhos dela fecharam-se um segundo. O quarto inteiro prendeu a respiração: o abajur, o lençol arruinado, os instrumentos na toalha branca — tudo parou para assistir à médica cometer o único ato que nenhum protocolo do mundo autorizaria.

— Laudo preliminar. — A voz saiu mais grave, e já não tinha jaleco nenhum por dentro. — A amostra está ótima. O problema nunca foi o paciente.

Ela tirou os óculos e os pousou sobre a prancheta, aposentando os dois de uma vez. Puxou a caneta do coque — o cabelo desabou pelos ombros com um peso de cortina caindo, e a caneta bateu no assoalho e rolou para debaixo da cama, onde nenhum prontuário a alcançaria. E subiu na cama, por cima dele, um joelho de cada lado, e o jaleco abriu-se no movimento revelando o que ele passou a consulta inteira sem saber e o corpo dela soube o tempo todo:

por baixo, não havia absolutamente nada. Só ela. Fervendo dentro do figurino frio desde o primeiro clique da caneta.

— O problema — sussurrou ela, a boca a um centímetro da dele, o perfume de todos os dias enfim vencendo o álcool — é que a médica passou a consulta inteira doente. — Ela pegou a mão dele e a levou por baixo do jaleco, guiando, e ele a encontrou febril, encharcada, altamente responsiva, e o gemido que ela soltou foi o primeiro som verdadeiro da noite. — Me examina.

— Selene...

— O paciente responde — a voz dela desmanchando — o que for perguntado. E eu não perguntei nada. Me examina.

Ele a examinou com o rigor que a noite exigia. Virou-a sobre o lençol destruído, abriu o jaleco sem tirá-lo — ela de jaleco aberto era mais nua do que nua — e administrou o tratamento ali mesmo, no leito de cantos desfeitos, em dose única e funda, quitando quarenta e oito horas de jejum com juros dentro da doutora, os dois sob a luz de exame que agora iluminava exatamente aquilo para o que sempre tinha sido acesa. Ela gemeu o nome dele sem multa. Ele gemeu o dela como quem finalmente pronuncia a palavra instalada. E quando ela gozou — apertada nele, as unhas nos ombros dele, o estetoscópio ainda pendurado no pescoço dela e a campânula fria pousada entre os corpos dos dois, roubando o som —, ele teve a certeza absurda de que o aparelho tinha escutado tudo, e guardado, e que em algum lugar do prontuário aquilo constaria para sempre: dois corações no mesmo traçado, taquicárdicos, incuráveis.

Depois, o silêncio voltou. Mas era outro silêncio — sem álcool, sem protocolo. Um silêncio de alta.

✦ ✦ ✦

O prontuário foi terminado na cama, ela de bruços, o jaleco servindo de cobertor para os dois pés dela, a prancheta apoiada no travesseiro.

— Laudo final — ditou ela para si mesma, escrevendo devagar: — paciente APTO. Apto demais, aliás. A queda de rendimento fica atribuída a... — mordeu a ponta da caneta nova, procurando o termo técnico — ...gerência insaciável. Arquive-se.

— E o carimbo? — provocou ele, o nariz no cabelo dela. — Clínica séria carimba.

— O carimbo... — Ela virou-se de lado, apoiou a cabeça na mão. E ele viu, antes da voz, a agenda chegar nos olhos dela — aquele brilho de quem já está três volumes à frente. — O carimbo vem com a receita. Consulta boa, meu bem, sai sempre com prescrição.

Destacou a última folha da prancheta, escreveu três linhas com floreio de receituário, dobrou em dois, entregou.

— Lê em voz alta.

— "Prescrevo: tratamento completo, em caráter experimental. Sessão única, data a definir pela responsável. O paciente deverá comparecer disposto a conhecer..." — a voz dele diminuiu de tamanho no meio da frase — "...a paciente nova da clínica." — Ele baixou o papel. — Selene. Que paciente nova?

— Ah... você vai adorar ela. — A doutora esticou o braço, apagou a luz de exame — e no escuro, aninhando-se no peito do paciente apto, deu alta à noite com a receita dobrada entre os dedos dele: — Ela é linda, é paciente, é obediente... tem exatamente o seu tamanho. E ainda não sabe que existe.

— Selene.

— Dorme, meu amor. Ela chega numa caixa.

Para levar a história para a vida real
O catálogo que inspira estes contos
Conhecer a Lovense →
Este conto contém link de afiliado. Posso receber comissão por compras qualificadas, sem custo extra para você.
Próximo · Nº 37
A Boneca
Continuar a série →
← Nº 35 · A Ordenha

Não perca o próximo

Contos novos, em breve narrados. Direto no seu e-mail.

✓ Você está na lista.