Ardilune
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Capa — O Gatilho
Ardilune · Contos · Nº 40

O Gatilho

— Eu não mando mais em você. Eu mando em coisas dentro de você.

"Presta atenção nas palavras que eu repito. Ou não presta — funciona igual."

Ele demorou onze dias para notar, e notou por causa do café.

Ela provou o primeiro gole da manhã, fechou os olhos e disse "maravilha" — uma palavra banal, dita mil vezes por mês naquela cozinha — e o braço dele arrepiou inteiro, do pulso ao ombro, sem consultar ninguém. Ele olhou para o próprio braço como quem olha um vizinho estranho no elevador. E aí a memória fez o serviço atrasado de onze dias, de uma vez só: "maravilha" sussurrado com a mão dela dentro da calça dele no sofá; "maravilha" gemido na orelha dele no meio de uma cavalgada; "maravilha" soprado contra a nuca dele junto com um aperto exato; "maravilha", "maravilha", "maravilha" — onze dias de uma palavra comum sendo casada, metodicamente, com os melhores segundos da vida dele.

— Você... — ele apontou para ela, para o café, para o próprio braço arrepiado. — Você tá me programando.

— Há onze dias. — Ela tomou outro gole, sem pressa. — Demorou pra compilar, hein. — E sorriu por cima da xícara: — Relaxa. É software de dona. Não tem vírus... só backdoor.

✦ ✦ ✦

Descoberto o projeto, ela o assumiu abertamente — porque a fase encoberta já tinha cumprido a função, e a fase aberta, explicou ela com a prancheta no colo, era ainda mais eficaz: "reflexo que o dono conhece e não controla é o dobro do reflexo."

O treinamento formal durou duas semanas e tinha três comandos no currículo. A palavra — "maravilha" —, já instalada, foi apenas reforçada: dita agora em dose diária, sempre colada num prazer físico imediato, a boca dela, a mão dela, uma vez o corpo inteiro dela, até o arrepio virar onda e a onda virar calor descendo — e o corpo dele respondendo até trancado, o aço da gaiola apertando em protesto surdo nas semanas de fechadura, o que ela registrava com alegria de engenheira: "funciona até com o hardware bloqueado. Isso é firmware, meu bem."

O estalo — dedos médio e polegar, seco, inconfundível — foi treinado às claras, como adestramento clássico: estalo, ele ajoelha, recompensa. No começo a recompensa era beijo, carinho, uma vantagem qualquer; na segunda semana, o próprio ajoelhar já tinha virado a recompensa, o corpo descendo com um alívio esquisito, como quem chega em casa depois de um dia longo — e ela cronometrou a queda: dois segundos e meio no primeiro dia, um e meio no quinto, e no décimo o joelho dele tocava o chão antes de ele decidir qualquer coisa.

E o toque no ombro — a mão dela pousando de leve, dois dedos — calava. Esse foi o mais fácil: quinze volumes de "regra dois" tinham deixado o terreno pronto; ela só pavimentou por cima.

A estreia social foi no almoço de família — a mãe dela, a tia, o tio das opiniões, a mesa comprida de domingo. Ele foi solto, sem aço, confiante. Erro. No meio da sobremesa, com o tio no auge de uma tese sobre futebol, ela provou o pudim, fechou os olhos e disse, alto e clara, para o salão civil inteiro:

Maravilha, mãe. Ficou uma maravilha.

Dois tiros. À queima-roupa. Ele endureceu na cadeira da sogra com pudim na boca, o calor descendo em ondas programadas, o garfo congelado no ar — e quando o tio perguntou "cê tá bem, rapaz?", ela esticou o braço com a naturalidade de quem alcança o sal e pousou dois dedos no ombro dele. O silêncio caiu redondo. "Ele tá ótimo", traduziu ela para a mesa, servindo-se de mais pudim. "Ficou sem palavras com a sobremesa."

✦ ✦ ✦

Na noite do teste final, ela propôs o duelo que enterrou a última ilusão de fronteira: ele tentaria resistir.

— Regra do jogo: eu vou disparar. Você vai lutar contra. Valendo. — Ela ficou de pé diante dele, os braços cruzados, deliciosamente científica. — Se você vencer o reflexo, você comanda a noite. Se o reflexo vencer você... — o sorriso dela nem terminou a frase, porque a frase já sabia o resultado de cor.

Ele plantou os pés, endureceu os joelhos, respirou fundo — um homem preparado, avisado, determinado, com toda a informação do mundo. Ela levantou a mão devagar, deixou-o marinar no aviso... e estalou.

Ele lutou. Foi o que tornou tudo pior e melhor: ele lutou, os joelhos tremendo contra a descida, dois segundos inteiros de guerra civil visível no corpo de um homem só — e desceu. O chão o recebeu como sempre, com aquele alívio de chegada, e ele ficou ali, ajoelhado e furioso e duro, derrotado pelo próprio sistema nervoso na frente da programadora.

— Que coisa linda de se ver — disse ela, agachando para ficar na altura dos olhos dele, segurando o rosto dele com as duas mãos. — Você entendeu o que aconteceu? Eu não mandei em você. Eu mandei numa coisa dentro de você... e a coisa te entregou. — Ela beijou a testa do derrotado, terna como um troféu se permite ser: — Bem-vindo à nova gestão. A partir de agora, meu amor, eu tenho as suas teclas de atalho.

✦ ✦ ✦

A noite da estreia plena foi regida sem uma única ordem verbal — e foi, ele juraria depois, a coisa mais intimamente obscena que a casa já produziu, porque não havia mais nem o teatro do comando: só ela, o silêncio, e os fios diretos ligados na fonte.

Estalo: ele ajoelhou no meio do quarto. Ela circulou o ajoelhado devagar, despindo-se sem pressa, deixando cada peça cair no campo de visão dele. Palavra — "maravilha", sussurrada de trás, na nuca: o calor desceu programado, o corpo acendendo em cascata sem que ninguém o tocasse. Dois dedos no ombro: o gemido que ia nascer morreu obediente. E assim ela o tocou a noite inteira sem tocar: conduzindo-o de reflexo em reflexo, do chão para a cama com um segundo estalo, da quietude para o tremor com a palavra dosada — uma, espera, outra, espera, três seguidas quando o quis arqueado e ofegante —, o corpo dele um instrumento executando uma partitura que morava nele e pertencia a ela.

Quando enfim montou nele — e a essa altura ele era só nervo, programado e implorante —, ela cavalgou em silêncio absoluto, os olhos nos dele, deixando o quarto inteiro para o som dos corpos. E no fim, com ele na borda tremendo à espera de um alvará que não vinha em palavras naquela noite, ela se inclinou, colou a boca na orelha dele e disparou a rajada:

— Maravilha. Maravilha. Ma-ra-vi-lha.

Três tiros no sistema, à queima-roupa, com ela apertando por dentro no terceiro — e ele explodiu pela palavra, gozando em cascata programada, o software e o hardware e o homem inteiro disparando juntos, enquanto ela ria e gozava por cima do próprio invento, a engenheira contaminada pelo produto, como sempre, como em todos os volumes, porque essa era a única falha de projeto que ela nunca quis corrigir.

✦ ✦ ✦

Depois, no escuro, ele ainda tinha réplicas — a palavra ecoando no sistema em ondas cada vez menores, o corpo estremecendo sozinho de tempos em tempos, e ela monitorando os tremores com a palma no peito dele, satisfeita como quem ouve um motor novo pegar no ponto.

— Preciso saber de uma coisa — disse ele, quando a voz voltou. — Isso desinstala?

— Desinstala. Três toques desinstalam tudo, sempre, até isso — você sabe. — Ela apoiou o queixo no peito dele, e foi honesta como só ela era nos fins de volume: — Mas você não vai pedir. Porque você descobriu hoje a mesma coisa que eu: que existe um descanso enorme em ter as próprias teclas... na mão de quem te ama. — Pausa. O sorriso mudou de série. — Aliás. Por falar em confiar o sistema inteiro...

Ela esticou o braço para a mesinha e voltou com um papel dobrado e uma caneta — o correio interno da casa entregando em mãos, dessa vez.

— Assina.

— O que é?

— Um termo. O mais importante de todos. — E como ele começou a desdobrar, ela pousou dois dedos no ombro dele — e ele calou, programado, com a pergunta morrendo na boca. — Sem ler não, meu amor. Lendo. Lê cada linha. Esse aí, você lê três vezes antes de assinar... porque o que ele autoriza acontece entre o dia dez e o dia trinta. Alguma noite. Qualquer noite. — Ela deitou de volta, fechou os olhos, e a última frase veio já do meio do sono, mansa como um alarme sendo armado: — E quando acontecer... você vai jurar que não me conhece.

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