Ardilune
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Capa — A Outra
Ardilune · Contos · Nº 42

A Outra

— Volto quando a namorada viajar. — V.

"Eu viajo mês que vem... e quero ver de perto a cara de pau dessa vagabunda."

A viagem era real — congresso de fim de semana, passagem comprada há meses, a mala feita na sexta com a etiqueta de despacho da viagem passada ainda colada na alça. Ela se despediu de manhã no elevador com um beijo comprido e uma instrução doméstica de despistar qualquer júri:

— Rega a samambaia, não vira a noite no computador... — as portas do elevador fechando nela — ...e se comporta.

O "se comporta" chegou no andar térreo antes dela. Ele passou o sábado inteiro com aquelas três sílabas fazendo hora extra na cabeça — porque naquela casa, depois do bilhete assinado por uma tal de V., "se comporta" não era despedida: era sinopse.

Às 21h04, a campainha tocou.

✦ ✦ ✦

Pelo olho mágico: uma ruiva. Cabelo longo, liso, caindo pesado num decote que a Selene não tinha no armário, batom vermelho-sangue, um brinco comprido balançando. Segurava uma garrafa de vinho pelo gargalo, displicente, e mascava a espera olhando as próprias unhas — vermelhas também, compridas, de outra mulher.

— Vai me deixar no corredor? — A voz atravessou a porta: meio tom abaixo, arrastada, a mesma da intrusa e não a mesma, com uma rouquidão nova de quem fuma na ficção. — Abre, vai. Amiga da sua namorada não é visita... é família.

Ele abriu, porque o termo geral da casa cobria aquilo desde sempre e porque a curiosidade já tinha vencido às 21h04 em ponto. Ela entrou como quem confere um imóvel na planta: correu os olhos pela sala, aprovou o sofá com um tapinha, achou duas taças no armário certo na primeira tentativa — detalhe que ele arquivou com um sorriso interno — e serviu o vinho dos dois com intimidade de dez anos de convivência.

— Vera. — Ela estendeu a mão de unhas vermelhas, e o aperto durou um segundo a mais que o civilizado. — A Selene te falou de mim? Não falou. Óbvio. — Ela sentou no sofá, cruzou as pernas devagar, e o vestido estranho obedeceu à física com entusiasmo. — Mulher esperta não apresenta a amiga errada pro namorado certo.

A sedução de Vera durou uma taça e meia e foi um curso magistral de guerra psicológica — porque cada investida vinha embrulhada num deboche da namorada, e ele se via na posição impossível de defender a Selene... da própria Selene: "ela te tranca, né? Se nota no olhar — olhar de homem de fechadura. Comigo você seria solto...""eu não quero ser solto""ai, que fofo. Latiu." A mão dela pousou no joelho dele na segunda taça, subiu dois dedos na terceira frase, e ele segurou o pulso dela — última bandeira da lealdade tremulando:

— Eu amo a Selene.

— Eu sei. — Vera nem piscou. Aproximou o rosto devagar, o perfume estrangeiro chegando antes, e destravou a noite com a lâmina mais fina do arsenal: — Por isso eu vim, bobinho. Mulher nenhuma rouba homem ruim.

✦ ✦ ✦

O beijo foi a fronteira — e ele a cruzou sabendo tudo e não sabendo nada, o paradoxo delicioso que era o motor do volume inteiro: a boca era dela, o gosto era quase dela, o batom era de outra, a técnica tinha um sotaque deliberado — Vera beijava mais funda, mais dente, menos paciência — e o corpo dele, especialista mundial em uma única mulher, passou o beijo inteiro processando um relatório de diferenças que dava, somadas, na mais estranha das conclusões: trair a Selene com a Selene era, tecnicamente, a maior prova de amor disponível no mercado.

— Quarto — decidiu Vera, levantando e puxando-o pela gravata que ele não vestia, pela gola mesmo, com as unhas vermelhas. — E vai avisando: eu não sou a tua namorada. Eu não faço liturgia, não faço contrato, não faço joguinho. — Na porta do quarto, ela o prensou contra o batente e mordeu o queixo dele: — Eu faço só uma coisa. E faço melhor que ela.

— Isso nós vamos ver — respondeu ele, entrando no jogo de vez, porque defender a honra da casa agora era parte do adultério.

✦ ✦ ✦

Vera foi uma amante completamente diferente — e o esforço colossal de diferença, sustentado cena após cena, era em si o espetáculo: onde a Selene regia, Vera atacava; onde a Selene narrava, Vera xingava curto; onde a Selene fazia esperar, Vera devorava com pressa de motel pago por hora. Ela o jogou na cama da Selene — fez questão, deitou no lado da Selene, esfregou o perfume estrangeiro no travesseiro da Selene com uma malícia de invasora — e o cavalgou com o cabelo ruivo chicoteando, as unhas vermelhas riscando o peito dele, exigindo em voz alta o inventário da traição:

— Fala. — O quadril dela batendo, o brinco comprido enlouquecido. — Quem fode melhor?

— Ela.

Vera parou. Um segundo de teatro perfeito — a fúria, o orgulho ferido — e desceu a mão num tapa estalado na coxa dele:

Repete.

— Ela. — Ele sustentou, dentro de outra, o olhar da mulher da vida dele: — Você é nova, é urgente, é proibida... mas ela é melhor. Sempre vai ser. Você tá cavalgando a prova.

E Vera — coitada da Vera, personagem traída pelo próprio roteiro — gozou com a resposta: desabou em cima dele apertando por dentro, furiosa e derretida, xingando-o de fiel no meio do orgasmo como quem xinga um santo por não pecar, e precisou de dez segundos inteiros de rosto enterrado no pescoço dele para Vera voltar a ser Vera e não a outra, a verdadeira, que tinha acabado de ouvir a melhor declaração de amor da série no meio da própria traição.

— Idiota — disse Vera, rouca, mordendo o ombro dele. — Agora goza. Pra ela, já que é assim. — E o cavalgou até ele explodir com o nome proibido preso nos dentes — regra é regra, nome não — e os olhos escancarados nos olhos castanhos e conhecidíssimos da estranha ruiva que chorava um pouquinho, de rímel borrado, sem nenhuma explicação no roteiro.

✦ ✦ ✦

A Selene "voltou de viagem" no domingo às seis da tarde — a mala real, o cansaço real de congresso, e um faro teatral afiadíssimo. Parou no meio da sala. Farejou. Estreitou os olhos.

— Tem cheiro de perfume vagabundo nessa casa.

O interrogatório durou uma hora e foi conduzido com a técnica processual completa: as provas dispostas na mesa (a taça com batom vermelho, o fio de cabelo ruivo "achado" no travesseiro, o bilhete antigo da V. como antecedente), o réu no sofá, a promotora andando de um lado para o outro exigindo tudo — e "tudo" era o ponto: ele teve que confessar a traição em detalhes, do decote ao tapa na coxa, com ela cobrando precisão ("que posição? Mostra com as mãos. E você gostou? OLHA PRA MIM quando responde"), os dois incendiando de novo a cada minuto de auto, até a promotora sentar no colo do réu no meio do depoimento e a audiência degenerar em reincidência ali mesmo, no sofá do crime.

— Sentença — decretou ela depois, despenteada por cima do réu, batendo o martelo imaginário no braço do sofá. — Réu confesso de adultério intramarital. Fica decretada... reparação. — Ela ergueu o queixo dele com um dedo, e a agenda chegou nos olhos dela com brilho de cifrão: — E reparação, meu bem, se paga em espécie. Aliás... — ela sorriu devagar, e ele sentiu o próximo volume abrir a porta — ...essa casa anda muito informal. Traição de graça, gozo de graça, tudo de graça. Acabou a cortesia. Segunda-feira eu publico a tabela.

— Tabela de quê?

— De preços, uai. — Ela beijou o réu com gosto de sentença transitada em julgado, e encerrou o volume no melhor estilo da casa: — A Vera cobrou caro pela visita... e me deu uma ideia.

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