
"Comportado demais", diagnosticou ela uma vez, correndo os olhos pelo salão de um restaurante bonito com a atenção de uma estrategista avaliando terreno — as saídas, as sombras, os pontos cegos. "Todo mundo aqui tão arrumadinho, tão civilizado..." E então, girando a taça devagar, sem olhar para ele, no tom de quem lê a previsão do tempo: "Um dia eu ainda vou fazer você rezar pra ninguém olhar pra nossa mesa."
O dia chegou na sexta seguinte à noite do silêncio — porque ela tinha avisado, no fio do sono, que ia fazer a reserva, e as reservas dela eram como as frases dela: nunca caducavam.
A reserva ser feita por ela já era um mau sinal. Ou o melhor de todos, dependendo do órgão consultado.
"Sexta, oito e meia, aquele restaurante que você gosta, o da toalha comprida. Reparou que eu disse 'da toalha comprida'? Pois é. Repara mais. Vem bonito. Regras na mesa."
Ele chegou primeiro, por educação e por ansiedade, as duas em partes iguais. Releu a mensagem três vezes na espera, procurando o alçapão que ele sabia que estava ali — repara mais — e não achou. Ela chegou dez minutos depois, no vestido preto que já tinha assinado outros crimes em outras comarcas, e atravessou o salão colhendo olhares com a naturalidade de quem recolhe aluguel. Sentou-se. Pediu o vinho sem abrir a carta. E só então olhou para ele, demoradamente, de alto a baixo, como sobremesa.
— Regras — disse, desdobrando o guardanapo com calma litúrgica. — Um: suas mãos ficam em cima da mesa a noite inteira. As duas. Visíveis. — Ela provou o vinho, aprovou com um aceno para o sommelier, esperou o homem se afastar três mesas. — Dois: as minhas, não.
Ele levou um segundo inteiro para processar a assimetria do tratado. Quando processou, já era tarde: ela tinha terminado o primeiro gole e o primeiro movimento — o pé dela, descalço embaixo da toalha comprida, encontrou o tornozelo dele e começou a subir sem pressa nenhuma, alpinista com a tarde livre.
— Três — continuou, em volume de cardápio, o rosto sereníssimo de quem discute entradas. — Você vai manter conversa comigo a noite inteira. Conversa de verdade, com frase completa e tudo. Se o garçom vier, você pede, comenta, elogia o prato. — O pé dela chegou ao joelho dele e ali ficou, de guarda, patrulhando a fronteira. — E quatro: aconteça o que acontecer embaixo dessa toalha... em cima dela não tá acontecendo nada.
A entrada chegou junto com a segunda ofensiva.
Ela discorria sobre um filme — com opinião de verdade, argumento de verdade, esperando resposta de verdade, porque a conversa não era disfarce do jogo: era parte da arena — enquanto o pé subia pela parte interna da coxa dele com uma exatidão que desmentia qualquer hipótese de improviso. Aquele pé tinha ensaiado. Ele respondeu sobre o filme. Não lembra o quê. Lembra que ela discordou, brilhante, com citação e tudo, e pressionou a sola do pé exatamente no ponto onde a frase dele ia — e a frase saiu pela metade, morreu, e foi reconstruída com heroísmo diante do garçom que chegava para servir a água.
— Você tava dizendo? — incentivou ela, apoiando o queixo na mão, os olhos de plateia cativa na primeira fila.
— Eu tava dizendo — retomou ele, com a voz de quem carrega piano por escadaria — que o segundo ato... se perde.
— Se perde — concordou ela, e o pé fez uma coisa que quase o fez concordar em volume de segundo andar. — Odeio quando isso acontece. A gente investe, se entrega... e aí perdem a mão no meio. — Sorriso mínimo por cima da taça: — Eu nunca perco a mão no meio.
No prato principal, a mão substituiu o pé. Ela trocou de lugar na mesa com a desculpa mais esfarrapada do hemisfério — "daqui a luz é melhor" —, sentou-se na cadeira ao lado dele, e a toalha comprida engoliu o resto da noite. A mão dela trabalhava com paciência de bordadeira: abria caminho, recuava, voltava, apertava e soltava, tudo em andamento de conversa, ponto atrás de ponto — e ele, mãos sobre a mesa conforme o tratado, cortava o próprio prato em cubos cada vez menores, geométricos, milimétricos, porque cortar aquele filé era a única coisa no mundo que ainda estava sob o controle dele.
— Tá gostando? — perguntou o garçom, materializando-se ao lado da mesa, solícito.
— Muito — respondeu ela pelos dois, radiante, no exato momento em que os dedos dela fechavam embaixo da toalha. — A gente vem sempre. Mas hoje tá... especial.
Foi na espera da sobremesa que ela se inclinou para perto, com o ar de quem conta segredo de anos de amizade, e destravou a informação final:
— Lembra que eu falei pra reparar? "Vestido preto, toalha comprida"... — Os lábios dela roçaram a orelha dele, e a voz desceu até quase desaparecer: — Faltou o terceiro item da lista. Embaixo desse vestido, desde as oito e meia... não tem lista nenhuma.
O mundo pendeu uns cinco graus. Ela afastou-se um palmo, conferiu o estrago no rosto dele com satisfação de vistoriadora, e completou em voz de brinde:
— O corredor dos banheiros tem uma porta no fim. Rouparia. Fica destrancada. Eu vou primeiro. Você conta até cem... — ela já se levantava, alisando o vestido com as duas mãos, um gesto que àquela altura era puro terrorismo — ...e pede a sobremesa pra mim. Petit gâteau. Eu volto antes dele derreter.
Ele contou até cem duas vezes, porque na primeira esqueceu números no caminho. Pediu a sobremesa com a voz mais civilizada do repertório, elogiou a sugestão do garçom, comentou o vinho. E atravessou o salão inteiro — vinte metros de mesas, risadas, taças, gente decente jantando em paz — sabendo o que sabia, carregando o segredo por baixo do paletó como um contrabando que latia.
A porta no fim do corredor abriu para escuro, cheiro de lençol limpo e ela — que o puxou para dentro pela gravata, trancou a porta com a mão às cegas e o beijou com toda a fome que duas horas de teatro civilizado tinham fabricado. Ali não houve lentidão: houve urgência calibrada, a pressa com maestro. O vestido subiu. Ele descobriu, com as mãos enfim anistiadas, que ela tinha dito a verdade — toda a verdade, desde as oito e meia. A perna dela enganchou nele, os dois de pé entre prateleiras de toalha dobrada, devorando-se no escuro, ela ditando o andamento até dentro do desespero — "assim... quieto... rápido... ninguém pode sentir a nossa falta..." — e o final chegou para os dois em fila, veloz e fulminante, abafado na boca um do outro, com a trilha sonora longínqua do salão de fundo: talheres, taças, civilização, ninguém desconfiando de nada.
Ela voltou primeiro, claro. Protocolo de quem planeja.
Quando ele chegou à mesa — colarinho conferido duas vezes no espelho do corredor, respiração ensaiada na porta —, ela já estava sentada, pernas cruzadas, batom intacto por milagre ou por competência, provando a sobremesa dele com a colher dele.
— Chegou a tempo — anunciou, empurrando o prato do petit gâteau para ele, o dela já pela metade. — Tá perfeito. Quente por fora, derretendo por dentro.
— Você tá descrevendo o doce?
— Tô descrevendo a noite. — Ela lambeu a colher, olhando-o nos olhos, absolutamente impune, cidadã acima de qualquer suspeita. — O doce é só a prova material.
Na saída, ele deixou uma gorjeta de constrangimento, generosa demais, quase um pedido de desculpas à instituição — e ela riu dele no táxi inteiro, a cabeça no ombro dele, o riso escandaloso preenchendo o carro.
Antes de dormir, já em casa, chegou o áudio de encerramento:
"Nota da noite: dez. Você conversou, pediu sobremesa e não soltou uma sílaba errada. Tô orgulhosa. E esse áudio aqui, aliás, vai direto pra pasta — porque eu guardo, viu? Tudo. Você ainda não conhece a pasta... mas um dia desses a gente conversa sobre o que mais eu quero gravado nela. Boa noite, lindo. Sonha comigo — de preferência com a cena da rouparia, que foi a minha favorita."
Ele ouviu duas vezes. Na primeira, sorriu.
Na segunda, ficou pensando na palavra pasta — e no que mais ela queria gravado.

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