
"Eu guardo os seus áudios", ela confessou uma vez, sem nenhuma cerimônia, como quem admite guardar cupons de desconto. "Os bons. Tenho uma pasta."
Ele fingiu escândalo. Ela deu de ombros, imune:
"Reclama não. Um dia eu ainda vou gravar você dizendo coisa muito pior. E você vai assinar embaixo."
Depois do jantar da toalha comprida, o aviso voltou por áudio — a pasta existe, e um dia desses a gente conversa sobre o que mais eu quero gravado nela. Ele passou a semana desconfiando do próprio telefone. Com razão.
O celular dela estava no criado-mudo, apoiado no abajur, com o gravador aberto e o ponteiro vermelho correndo. Foi a primeira coisa que ele viu quando ela o trouxe para o quarto — planejado, claro, coreografado até no ângulo: ela queria que ele visse. O vermelho pulsava no escuro como um farol pequeno avisando dos recifes.
— Senta na cama. — Ela apontou o lugar exato, o centro do palco. — Hoje o jogo é o mais difícil de todos. Não precisa de venda, nem de regra de mão, nem de brinquedo. Precisa só de uma coisa que você tem e esconde.
— Que coisa?
— Voz. — Ela sentou-se de frente para ele, de pernas cruzadas, régia, o tribunal inteiro numa mulher só. — Funciona assim: você vai me confessar as suas fantasias. Uma por uma. Olhando nos meus olhos, com frase completa, com todas as palavras — as feias principalmente. E pra cada confissão, eu decido na hora: executo, nego, ou arquivo pra uma noite futura. — Ela indicou o celular com o queixo. — Gravando. Porque confissão sem registro é só conversa.
— E se eu não confessar?
— Aí não acontece nada. — Ela sorriu, terrível, a crueldade servida em porcelana. — Literalmente nada. Eu levanto, faço um chá e a gente vê um filme. A noite inteira depende da sua sinceridade. — Inclinou-se para a frente, os olhos fixos nos dele, e baixou a sentença preliminar: — E eu detecto mentira e frase genérica de longe, então capricha. Confissão preguiçosa é negada de ofício.
A primeira confissão saiu engasgada, meio de lado, os olhos dele fugindo para o abajur como testemunhas escapando do fórum — e ela cortou no ato, com um estalo de dedos:
— Nos meus olhos. De novo. Do começo.
Ele recomeçou. Olhando. E descobriu na segunda frase por que aquele era o jogo mais difícil de todos os jogos da casa: dizer a coisa, com as palavras da coisa, para o rosto da pessoa com quem se quer a coisa, é uma nudez que não tem equivalente física. Tirar a roupa é fácil — a pele não confessa autoria. A voz confessa. A voz dele foi ficando mais baixa e mais áspera à medida que a fantasia tomava forma no ar do quarto — uma cena com ela no espelho, detalhada, posição, ângulo, comando, tudo — e ela ouviu sem piscar, o rosto impassível de juíza de comarca antiga, só a respiração mudando de marcha aos poucos, traindo o tribunal por dentro.
— Executo — sentenciou, quando ele terminou.
E executou. Ali, na penteadeira do quarto, exatamente como confessado, cláusula por cláusula: ela de costas para ele e os dois de frente para o espelho, o comando dela montado por cima da fantasia dele — "olha pra gente... você confessou isso, agora assiste..." —, e ele entendeu, vendo no vidro o que tinha dito em voz alta, que a execução vinha com juros: ela fazia a cena dele melhor do que ele tinha ousado imaginar. A imaginação dele era o rascunho. Ela era a edição definitiva.
A segunda confissão, mais ousada, ele contou já sem gaguejar — o jogo ensinava rápido, e o espelho tinha sido um ótimo professor. Uma cena com gelo, com tempo, com ela amarrada pela primeira vez, os papéis invertidos uma noite só. Ele contou inteira, com as palavras feias nos lugares certos, e ela ouviu até o fim, saboreou o silêncio depois como quem gira um vinho na taça — e negou, com uma delicadeza de carrasco:
— Negado. — E diante do protesto mudo dele, ergueu um dedo: — Não por falta de vontade. Por excesso. Essa aí eu quero numa noite em que eu tenha dormido bem, sem hora pra acabar e com o dia seguinte livre. — Ela pegou o celular, marcou o ponto da gravação com um toque preciso, e anotou em voz alta, para os autos: — Arquivada com prioridade máxima. Consta em ata que o réu tremeu ao confessar.
— O réu treme desde as nove — disse ele, rouco.
— O tribunal notou. — Ela voltou a sentar-se de frente, mais perto agora, os joelhos tocando os dele, a toga caindo um pouco. — Última confissão. A de número três. — A voz dela desceu meio tom, saiu do fórum: — E eu quero aquela. A que você nunca contou. A que você acha que não pode.
O quarto ficou muito quieto. Até o ponteiro vermelho pareceu correr mais devagar.
Ele a olhou por um longo tempo — e ela sustentou o olhar sem pressa, sem cobrança, sem tribunal nenhum agora. Só aberta. Esperando. Foi aí que ela fez a única coisa terna da noite inteira, e a mais devastadora: esticou o braço até o criado-mudo e pausou a gravação.
— Essa — disse baixinho — é só minha.
E ele contou. A fantasia sem nome, a do fundo da gaveta, a que era menos sobre corpo e mais sobre entrega — contou devagar, com falhas, com as palavras erradas corrigidas no meio do caminho, os olhos nos olhos dela do início ao fim, porque a essa altura da noite ele já não sabia olhar para outro lugar. Ela ouviu inteira com os olhos marejando e brilhando ao mesmo tempo, uma combinação que produziu nele um terror momentâneo e absoluto — até ela se mover.
Não disse executo. Não disse nada.
Subiu nele e executou sem sentença, ali mesmo, a confissão número três traduzida em ato no escuro do quarto, lenta e funda e absoluta, os dois desmontando juntos a portas fechadas e microfone desligado — porque tem coisa que se grava, ela explicaria depois, e tem coisa que só se vive, e saber a diferença entre as duas era exatamente o poder dela.
Quando os dois terminaram — e demorou, e recomeçou, e terminou de novo —, o celular seguia pausado no criado-mudo, guardando fidelidade ao trato. Dos três segredos da noite, o maior ficou onde ela prometeu: fora dos autos.
Três dias depois, no meio de uma tarde comum de trabalho, o telefone dele vibrou. Áudio dela, sete segundos. Ele deu play com o fone, desprevenido, entre um e-mail e outro:
[sete segundos da voz dele, gravada, no ponto mais indefensável da primeira confissão — seguidos da risada dela, escandalosa, e um beijo estalado no microfone]
E embaixo, a legenda, digitada:
"Lembrete do que você é quando fica sincero. A número dois tá arquivada com prioridade máxima — o tribunal marca a data, e o réu não vai saber o dia. E vai pensando numa coisa enquanto isso, lindo: confissão gravada é quase escritura. E escritura, uma hora... se lavra. — S."
Ele guardou o telefone com as mãos quase firmes e passou o resto da tarde inútil, dividido entre dois medos deliciosos: o sábado sem data da confissão número dois — e essa palavra nova na conversa, escritura, que na boca dela nunca seria figura de linguagem.

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