Ardilune
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Capa — Posse
Ardilune · Contos · Nº 14

Posse

— Hoje você não decide, não pede, não é. Hoje você tem dona.

Ele disse uma vez — no fim da noite em que a voz dela o amarrou sem corda nenhuma — que pertencia a ela "com escritura e tudo". Falou por gracejo, do jeito que se fala depois, quando o corpo ainda está anistiado e a boca assina qualquer coisa.

Ela guardou por cláusula, do jeito que ela guardava tudo.

E depois veio o aviso na legenda do áudio, a palavra solta como quem não quer nada: escritura, uma hora, se lavra. Semanas depois, cobrou, com a paciência de quem deixou o cartório aberto esse tempo todo:

"Toda posse séria, meu amor, um dia vai a registro."

O registro foi lavrado numa noite de sábado, na mesa da cozinha, antes de qualquer toque.

Ela o fez sentar do outro lado da mesa — distância formal, negocial, a mesa de jantar promovida a mesa de audiência — e colocou entre os dois uma folha de papel de verdade, uma caneta de verdade, e duas taças de vinho que ficaram intocadas até o fim da lavratura, porque ela fazia questão da sobriedade dos contratantes.

— Hoje eu não quero jogo — começou. — Jogo tem placar, tem turno, tem revanche. Hoje eu quero outra coisa, e eu quero que você entenda exatamente o que é antes de dizer sim. — Ela o olhou por cima do papel, séria de um jeito que ele conhecia de pouquíssimas ocasiões, todas importantes: — Hoje, das dez à meia-noite, você não vai ser meu namorado, meu parceiro, meu igual. Você vai ser meu. Coisa minha. Uso meu. Eu vou te usar pro meu prazer, do meu jeito, no meu tempo, e a sua vontade não vai ser consultada nem uma vez. É isso que eu quero. — Uma pausa do tamanho da frase seguinte: — Duas horas de dono ausente.

O silêncio na cozinha tinha peso físico, densidade de mobília. Ela deixou o silêncio trabalhar por ela — sempre soube delegar — e então virou o papel para ele:

— Por isso tem contrato. Porque uma coisa dessas ou se faz com as regras muito claras, ou não se faz.

*INSTRUMENTO PARTICULAR DE POSSE — VIGÊNCIA: 22h à 0h*

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Cláusula 1ª — Durante a vigência, o objeto não decide, não pede, não recusa, não opina.
Cláusula 2ª — O objeto responde quando perguntado. No mais, cala.
Cláusula 3ª — A proprietária pode tudo que foi conversado — e nada do que não foi.
Cláusula 4ª — Três toques, com qualquer parte do corpo, em qualquer superfície, encerram tudo. Na hora. Sem pergunta, sem multa, sem ressentimento. O contrato morre e a gente vira a gente de novo.
Cláusula 5ª — À meia-noite, a posse expira sozinha. O que ela deixar de saldo... é lucro.

— Cláusula quarta é a mais importante do documento — disse ela, batendo o dedo três vezes na mesa, devagar, didática, exemplificando. — Mostra pra mim.

Ele bateu três toques na madeira.

— De novo.

Ele repetiu.

— Boa. Se eu vir isso, eu paro no meio da sílaba. Testa quando quiser, inclusive à toa, só pra ver se funciona. Vai funcionar. — Então ela empurrou a caneta pela mesa, e a seriedade dela abriu uma fresta de sorriso, a primeira da noite: — Assinatura do objeto.

Ele assinou. Ela recolheu o papel, conferiu a assinatura com pose de tabeliã de comarca séria, dobrou em dois, guardou. E bebeu, enfim, o primeiro gole de vinho, olhando-o por cima da taça com outros olhos — os de dona recém-empossada conferindo o lote.

— Dez horas — disse. — Você tem oito minutos pra tomar banho e me esperar no quarto. De joelhos fica bem em você?

Não era pergunta. Era inventário.

✦ ✦ ✦

Às dez em ponto ela entrou no quarto e não olhou para ele.

E essa foi a primeira lição da noite. Ela circulou pelo cômodo acendendo a vela, escolhendo a música, pendurando o roupão atrás da porta, habitando o próprio quarto com toda a calma do mundo — enquanto ele esperava ajoelhado ao pé da cama, invisível, mobília entre mobílias, aprendendo na pele o que a cláusula primeira significava na prática: coisa não é cumprimentada. Coisa está à disposição.

Quando enfim o olhou, foi de cima a baixo, sem pressa, como quem decide por onde começar a usar uma coisa nova.

— Meu — disse.

Só isso. E a palavra desceu nele com mais peso do que qualquer ordem já tinha descido — porque ordem se cumpre, e aquilo não pedia cumprimento: constatava.

O que se seguiu não se parecia com nenhuma das noites anteriores — nem com as do comando, nem com as da espera, nem com as do silêncio. Naquelas, ele era adversário, aluno, instrumento: tinha papel, e papel é companhia. Nesta, ele era pertence. Ela o usou como se usa algo que não precisa de agrado: guiou a cabeça dele para onde queria e pelo tempo que queria, tomou o prazer dela dele em doses longas e egoístas, mudou-o de posição com dois dedos e uma palavra, interrompeu o que estava bom para ela só porque outra coisa ficaria melhor para ela — e nunca, nem uma vez, perguntou como ele estava. A cláusula primeira valia. E os três toques dormiam, disponíveis e desnecessários, na ponta dos dedos dele, como um telefone de emergência num país onde nada pega fogo.

— Presta atenção no que você é agora — murmurou ela em algum ponto da noite, montada nele, usando-o num ritmo que era só dela, os olhos fechados no próprio prazer, o dele fora da pauta. — Uma coisa minha. Uma coisa boa minha. Minha coisa favorita. — E abriu os olhos no momento exato, fiscalizadora: — Eu vi. Pode tremer de novo.

Era isso o que nenhuma teoria tinha contado a ele, e que nenhuma teoria conta: a degradação, ali dentro, com ela, não diminuía — alojava. Ser coisa dela era ser algo que ela escolhia, guardava, usava e não largava. Havia uma paz obscena nisso, uma folga inédita: a vontade dele, dispensada na cláusula primeira, não fez falta nenhuma a ninguém.

A dela bastava para os dois.

✦ ✦ ✦

No meio da noite, ela parou tudo de repente — e ele gelou, correndo o regulamento de cabeça, procurando o erro.

Não havia erro. Ela apenas se inclinou, pegou a mão dele com as duas dela, e a pousou aberta sobre o colchão, com um cuidado que não constava do instrumento.

— Mostra os três toques — pediu, baixinho, fora do personagem por exatos cinco segundos. — Só pra eu ver que você lembra.

Ele bateu três vezes, devagar, no lençol.

Ela assentiu. Beijou a palma da mão dele como quem beija uma coisa preciosa — a chave do próprio poder, guardada na mão do outro.

— Ótimo. Esquece de novo.

E voltou a ser dona no meio do mesmo fôlego, sem emenda visível — e a noite dobrou de intensidade justamente ali, porque agora ele sabia com o corpo inteiro o que antes sabia só com a cabeça: o poder dela era absoluto porque era emprestado. Devolvível a três toques de distância. E mesmo assim — por isso mesmo — ele não devolveu.

Perto da meia-noite, ela o deitou de costas, subiu pela última vez e o usou até o próprio fim, sem cerimônia e sem pressa, o prazer dela desabando em ondas compridas enquanto segurava o queixo dele para que assistisse a tudo, camarote obrigatório. Só então, desfeita e soberana, consultou o relógio do criado-mudo: 23h57.

— Três minutos de vigência — anunciou, ofegante, com um resto de riso na voz. — Propriedade também se cuida. — E desceu sobre ele, a boca na orelha, o último carimbo: — Goza pra sua dona. É a última ordem do contrato.

Ele obedeceu como se quita uma escritura: por inteiro, de uma vez, com juros de duas horas — e o relógio virou meia-noite com os dois ainda tremendo, a posse expirando sozinha em cima deles, conforme a cláusula quinta, deixando de saldo exatamente o que ela tinha previsto no papel: lucro.

✦ ✦ ✦

Depois — e essa parte nenhum contrato regulava, e por isso valia mais que o contrato inteiro — ela o cobriu, trouxe água, deitou o rosto no peito dele e ficou fazendo carinho na nuca dele por um longo tempo, em silêncio, enquanto os dois voltavam devagar a ser os dois.

— Oi — disse ela, enfim, com a voz de sempre.

— Oi — respondeu ele, com a que sobrou.

— Muito esquisito?

— Esquisito é o quanto não foi. — Ele procurou as palavras no teto, o cartório da casa. — Eu passei duas horas sem ser ninguém. E foi o lugar mais seguro em que eu já estive.

Ela ficou quieta um instante — e ele sentiu, contra o peito, o sorriso dela abrindo devagar na pele. Então ela esticou o braço para o criado-mudo, pegou o papel dobrado e a caneta, riscou alguma coisa com três traços decididos e devolveu-lhe o documento.

Embaixo da assinatura dele, agora, havia a dela. E uma emenda de próprio punho na cláusula quinta:

*ADITIVO — DE PRÓPRIO PUNHO*
Fica retificada a cláusula 5ª: a posse não expira. Passa a regime permanente, com exercício facultativo da proprietária, mediante aviso prévio de um áudio.
Assinado: a Dona.

— Guarda a sua via — disse ela, aninhando-se de volta no peito dele, já de olhos fechados, a tabeliã encerrando o expediente. — E fica esperto com o celular. Aviso prévio, a partir de hoje... é coisa que chega a qualquer hora.

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