Ardilune
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Capa — Três Desejos
Ardilune · Contos · Nº 15

Três Desejos

— Sem prazo. Sem recusa. E o terceiro eu só conto na hora.

Ela nunca apostava dinheiro.

"Dinheiro acaba", explicava, com o desdém tranquilo de quem conhece moedas melhores. "Eu cobro em desejo. Um desejo, cobrável quando eu quiser, sem direito a recusa." E como ele sempre achava que ia ganhar — e nunca ganhava, e a série histórica não o ensinava nada —, a dívida dele foi crescendo do jeito que ela mais gostava de ver as coisas dela crescerem: em silêncio, rendendo juros.

A aposta que mudou tudo foi sobre uma bobagem. O final de uma série que os dois acompanhavam no sofá, semana a semana, com opiniões fortes e pipoca. Ele tinha uma teoria. Ela tinha outra. Ele ofereceu um jantar; ela recusou com uma careta de quem recebeu troco em bala, e fez a contraproposta com a calma de quem estende uma armadilha no chão e a cobre de folhas:

— Três desejos. Valendo os três de uma vez. Sem prazo de validade, sem direito a recusa, cobráveis quando e onde eu decidir. — E diante da hesitação dele, um segundo e meio de hesitação, o golpe de misericórdia, servido com a voz mais inocente do repertório: — Ué. Você não tem certeza?

Ele tinha certeza. Apertaram as mãos por cima do sofá, solenes como dois chanceleres assinando a rendição de um deles.

O final da série saiu na quinta. A teoria dela estava certa até nos detalhes — até no detalhe que ele tinha usado como argumento definitivo contra ela.

E então — e isso foi o mais cruel, e ele deveria ter previsto porque a crueldade dela era sempre a paciente — ela não cobrou. Uma semana. Duas. Nenhuma menção. Nem uma indireta. Só de vez em quando, no meio de um jantar ou de uma conversa sobre nada, ela o pegava olhando, sorria devagar, e erguia três dedos no ar. Sem uma palavra. Três dedos, e voltava ao risoto.

Desejo, ele aprendeu naquelas semanas, é vinho: ela estava deixando envelhecer.

✦ ✦ ✦

O primeiro veio numa terça-feira à noite, por áudio, quando ele menos esperava — terça-feira, o dia mais desarmado da semana:

"Primeiro desejo. Hoje, onze da noite, videochamada. Você vai se tocar pra mim, do início ao fim, exatamente como eu mandar — velocidade, mão, pausa, tudo meu. E o detalhe que faz o desejo valer: a minha câmera fica desligada. Você não vai me ver. Só ouvir. Quero você se expondo inteiro pra uma voz. Onze horas. Não se atrasa."

Foi a hora mais longa e mais indecente da vida dele até então: ele exposto na tela como num palco de teatro lotado de uma pessoa só, e ela — plateia invisível, diretora de voz — conduzindo cada movimento do escuro. Ela comentava o que via com um vagar de connoisseur diante de um rótulo raro, mandava parar toda vez que o fim se aproximava, fazia perguntas que exigiam resposta em frase completa no pior momento possível de se completar frases — e decidiu, quando quis, e só quando quis, permitir.

Ao final, a tela dela continuou preta. Só veio a voz, satisfeita e rouca, do fundo do escuro:

Um. Dorme bem, lindo.

✦ ✦ ✦

O segundo levou mais três semanas — o tempo exato, calculado em laboratório, de ele baixar a guarda.

Num sábado à tarde, ela chegou na casa dele com uma sacola de banho, entrou como quem toma posse de território anexado em plebiscito anterior, e anunciou:

— Segundo desejo. Hoje, das oito à meia-noite, você é meu criado. Não é jogo de cama: é serviço. Você vai preparar meu banho, me lavar o cabelo, me secar, fazer minha massagem — a completa, sem pular parte nenhuma — e me servir o jantar que você vai cozinhar. Depois... — ela deixou a pausa crescer, saboreando cada segundo do rosto dele — ...você vai me dar prazer. Só a mim. Do jeito que eu pedir, quantas vezes eu pedir. E à meia-noite você me cobre, apaga a luz e dorme. Você não recebe nada hoje. Nada. Esse é o desejo.

E foi. Banho de banheira à luz baixa, os dedos dele trabalhando no couro cabeludo dela até ela ronronar de olhos fechados, escorregada na água como uma gata ao sol. A massagem inteira, sem pressa, ela derretida e mandona ao mesmo tempo — "mais embaixo... menos força... aí... dez minutos aí" —, ditando o próprio derretimento com precisão de maestrina. O jantar servido com ela enrolada no roupão dele, os pés no sofá, rainha em trono alheio. E depois o quarto, onde ele a levou três vezes ao fim do mundo com a boca e com as mãos e não recebeu de volta nem o alívio de um toque — deitando-se ao lado dela à meia-noite em ponto, pontualíssimo e em brasa viva, enquanto ela adormecia em quinze segundos com o sorriso mais pacífico do hemisfério sul.

De manhã, ela o acordou com café e uma auditoria:

— Cumprido com louvor. Dois. — E mordendo a torrada, pensativa, os pés no colo dele: — Sabe o que eu mais gostei? Você não pediu nada. Nem no final. Tá aprendendo a esperar... — o sorriso dela fez referência bibliográfica, nota de rodapé apontando para uma certa noite de terças-feiras atrás — ...igual naquela outra noite.

✦ ✦ ✦

O terceiro não veio.

Um mês. Dois. Ele vivia agora num estado de alerta delicioso e permanente — porque o aviso prévio, ele sabia desde o aditivo do contrato de posse, chega a qualquer hora, e todo áudio dela era um envelope lacrado que podia conter a sentença. Ela sabia que ele sabia. E administrava esse saber como administrava tudo: com sadismo de varejo. De vez em quando, do nada, mandava um áudio que começava "Desejo..." — pausa de dois segundos, o coração dele parava no acostamento — "...de comer aquele risoto. Vamos?"

E a risada dela no áudio seguinte era a de quem coleciona pequenas mortes alheias em álbum de figurinhas.

Quando veio, veio sem cenário nenhum. Um domingo comum, fim de tarde, os dois no sofá, o resto de um filme passando esquecido na tela. Ela desligou a TV sem pedir licença, sentou-se de frente para ele, no colo dele, e segurou o rosto dele com as duas mãos — o gesto que ela reservava para as coisas que precisavam ser recebidas de frente.

— Terceiro desejo — disse.

O mundo dele ficou em silêncio absoluto, sala, rua, século. Ela deixou o silêncio doer um pouco, porque podia, e porque juros se cobram até o último dia.

Tudo de novo.

— ...tudo o quê?

— Tudo. — Os olhos dela brilhavam de um jeito que misturava incêndio e arquivo, as duas repartições dela funcionando juntas. — A espera. O brinquedo na festa. A venda. A noite do silêncio. A mesa da toalha comprida. O gravador no criado-mudo. O contrato. — Ela foi enumerando devagar, um dedo de cada vez, a coleção inteira desfilando entre os dois como um cortejo. — Tudo o que a gente já fez. De novo. Do começo. Uma por mês, o ano que vem inteiro...

Ela inclinou-se até a boca quase encostar na dele, e entregou a cláusula final do terceiro desejo, aquela que transformava a lâmpada de gênio em escritura registrada:

— ...só que dessa vez, na ordem que eu escolher. E com as melhorias que eu já anotei.

— Anotou onde?

— Numa pasta. — Ela sorriu, sem soltar o rosto dele, e o sorriso tinha gavetas. — Você acha que eu guardo só áudio?

✦ ✦ ✦

Muito mais tarde — porque o terceiro desejo, naturalmente, começou a ser executado naquela mesma noite, capítulo um, edição revisada e ampliada —, ele lembrou de uma pendência antiga, no escuro:

— Selene. Aquela aposta da série. — Ele sentiu o corpo dela ficar imóvel contra o dele, de um jeito minuciosamente suspeito. — Você tinha lido alguma coisa, não tinha? Algum vazamento. Você sabia o final.

O silêncio dela durou o tempo exato de uma confissão.

— O que eu vou dizer agora não anula o contrato — avisou ela primeiro, jurista até o último fôlego do expediente. E então, aconchegando-se no peito dele, sem um miligrama de remorso: — Eu nunca aposto. Eu cobro adiantado. Aposta é só o nome que eu dou pro seu recibo.

Ele riu até a cama balançar. Ela deixou — rir também estava na pasta.

E quando ele já escorregava para o sono, vencido e feliz, a voz dela chegou da fronteira do dela, baixinha, administrativa:

— Ah, e lindo... antes do replay começar, tem uma estreia na fila. O arquivo tá com uma certa número dois vencendo... e eu ando dormindo muito bem.

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