
Foi depois de uma noite linda — dessas de vela, banho e devagar, o repertório nobre da casa executado sem uma nota errada — que ela disse, no escuro, com a cabeça no peito dele e a voz de quem comenta o filme depois da sessão:
"Foi perfeito. Sério." Pausa. "Mas eu preciso te confessar uma coisa..." Pausa maior. "Um dia eu quero que você me foda como se a gente tivesse acabado de se conhecer num bar de beira de estrada. Sem educação nenhuma. Eu aviso o dia."
Ele riu.
Ela não estava rindo.
E depois veio a noite da boca suja, o vocabulário destravado, a regra cinco lavrada — e o lembrete dela no fim, pendurado no sono dele feito um bilhete na geladeira: o pedido do bar de beira de estrada tá esperando exatamente por essa boca. Não ri dessa vez, né? Aprendeu.
O aviso veio numa quinta-feira, às seis e meia da tarde, com duas linhas e nenhum adjetivo:
"É hoje. Não toma banho, não arruma nada, não acende vela. Oito horas. E esquece o homem educado no trabalho, porque se ele aparecer aqui, eu mando de volta."
Ela entrou às oito e não deu boa-noite.
Trancou a porta com a chave, jogou a bolsa no sofá sem olhar onde caiu — a bolsa dela, que tinha assento cativo e cabide próprio, jogada como bagagem de rodoviária — e ficou parada no meio da sala, medindo-o de cima a baixo. Não como das outras vezes, de dona conferindo o patrimônio, de juíza pesando o réu.
De fome.
— Regra de hoje: não tem regra. — A voz dela já saiu áspera, lixada. — Tem só o combinado de sempre, os três toques, que valem até no fim do mundo. O resto... — ela veio andando, devagar, e o parou contra a parede com uma mão espalmada no peito — ...o resto hoje não tem cerimônia, não tem fogo lento, não tem "com licença". Hoje eu não sou sua namorada e você não é meu namorado. Hoje eu sou a puta que você quer foder e você é o cachorro que eu quero usar. Tá bom pra você?
— Tá — saiu dele, num fio.
— "Tá" o caralho. — A mão dela fechou na camisa. — Fala direito.
— Tá ótimo, porra.
— Melhorou.
E ela puxou a camisa com as duas mãos, e os botões voaram pela sala em diáspora, e a boca dela veio como um assalto.
Não houve caminho até o quarto. O quarto perdeu por WO.
Houve a parede da sala, onde ela o beijou com dente, puxou o cabelo dele para trás para morder o pescoço exposto e riu quando ele grunhiu — uma risada suja, curta, de quem confere que o animal veio e não mandaram o representante. Houve o resto da roupa dos dois saindo por demolição, sem dobra, sem cadeira, o vestido dela que ele tirou de qualquer jeito porque ela mandou — "arranca logo, essa merda tem zíper mas hoje não tem paciência". E houve a mesa da cozinha, onde a noite se decidiu.
— Aqui. — Ela varreu com o antebraço o que tinha em cima, sem inventário, sem luto, e debruçou-se de frente para a mesa, olhando para ele por cima do ombro. — De quatro pra você hoje. Aproveita, que é raro. E me fode logo, que eu tô molhada desde o ônibus.
— Desde o ônibus?
— Eu vim o caminho inteiro pensando na sua cara quando lesse a mensagem. — Ela empinou, impaciente, e a voz desceu para um rosnado: — Conversa depois. Agora enfia.
Ele enfiou. De uma vez, do jeito que a noite pedia e a educação proibia, e o gemido que ela deu não coube na cozinha — um som largo, escancarado, sem nenhuma das lapidações dos outros volumes, o prazer em estado bruto saindo com palavrão junto: puta que pariu, isso, assim, caralho. Ele fodeu como mandado: forte, fundo, a mesa reclamando a cada estocada, as mãos dele cravadas no quadril dela deixando os dez dedos de recibo — e quando amaciou por instinto, por amor, por hábito de quatro volumes de vela, ela olhou para trás com os olhos em brasa:
— Eu falei pra ir devagar? Eu sou de porcelana, por acaso? — Ela empurrou o quadril contra ele, tomando o ritmo de volta na marra. — Eu sou sua fêmea, caralho. Me fode como macho, que hoje eu aguento e hoje eu quero.
— Então segura — respondeu ele, e a mão dele enrolou no cabelo dela como rédea, e o resto foi estrondo: a mesa andando de centímetro em centímetro pela cozinha, mobília em fuga, ela xingando e mandando mais, ele respondendo à altura com a boca solta que ela mesma tinha destravado no volume anterior — minha puta, minha, olha como você rebola nesse pau, escândalo da porra —, cada frase suja recebida com um rebolado de recibo. E ela gozou a primeira vez ali mesmo, gritando, batendo a palma da mão na mesa três vezes.
Que não eram OS três toques.
Eram só aplauso.
Depois foi o chão — porque a mesa tinha acabado longe demais e ninguém tinha tempo de ir buscar.
Ela por cima, os joelhos no piso frio, cavalgando sem nenhuma coreografia, suada, o cabelo grudado na cara, linda de um jeito que nenhuma produção alcançaria — a beleza de quem largou a direção de arte e ficou só com a cena. Mandava nele aos rosnados: aperta, morde, fala, FALA — e ele falava, e mordia, e apertava, e os vizinhos, que uma vez tinham ouvido um único grito às onze e meia e passado a semana montando a cena sem dados, ganharam nessa noite o álbum completo, com participação dos dois artistas e percussão de mesa.
— Fala o que eu sou hoje — exigiu ela, no meio do galope, segurando o queixo dele.
— Minha puta.
— E você é o quê?
— Seu cachorro.
— Meu. — Ela apertou o queixo dele, os olhos cravados nos dele, o ritmo desabando para dentro do fim. — Essa parte não muda nunca. Nem no chão da cozinha. Agora goza dentro, cachorro, que a puta mandou. E geme alto, que hoje é de graça.
Ele obedeceu com o corpo inteiro e a garganta junto, sem desconto — e ela desabou por cima gozando a segunda, os dois derretendo no piso frio da cozinha entre botões espalhados, uma fruteira caída e a civilização inteira revogada por uma noite, por decreto de ninguém, referendado por unanimidade.
A civilização voltou aos poucos, junto com o fôlego.
Ela rolou para o lado e ficou de costas no chão, olhando o teto da cozinha como quem olha estrelas. Ele esticou o braço e resgatou, do meio do campo de batalha, um botão órfão.
— Você me deve uma camisa.
— Processa. — Ela riu, exausta, escandalosa. — Boa sorte explicando os autos.
Ele riu junto, e os dois ficaram ali, no chão, de mãos dadas — o primeiro gesto educado da noite inteira, e por isso o mais indecente de todos. Depois de um tempo, ela virou o rosto para ele, e a voz já era a dela de sempre, macia, de dona satisfeita conferindo o patrimônio depois da tempestade:
— Confere comigo. Vela?
— Nenhuma.
— Fogo lento?
— Zero.
— Educação?
— Revogada com sucesso.
— Perfeito. — Ela fechou os olhos, sorrindo, o inventário aprovado em todas as rubricas. — Anota no acervo: a gente sabe fazer os dois. O devagar e o de beira de estrada. — Ficou um instante quieta, e então acrescentou, mais para si: — E anota outra coisa. Hoje, nessa cozinha, eu não recebi nada... eu tomei. — A palavra ficou parada no ar, degustada. — Tô pegando gosto por tomar.
Ela levantou, catando o vestido do chão com a elegância intacta por cima do caos, e parou na porta da cozinha para a última palavra, como sempre:
— Semana que vem tem vela de novo. Eu gosto do contraste... e o contraste gosta de mim.

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