Ardilune
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Capa — No Trono
Ardilune · Contos · Nº 19

No Trono

— Toda rainha precisa de um trono. Hoje o trono é a sua cara.

"Deitada eu recebo. Eu não quero receber — eu quero tomar."

Ela já tinha avisado, no chão da cozinha, que andava pegando gosto por tomar. O que ninguém tinha avisado a ele era a velocidade com que um gosto, na boca dela, virava política de Estado.

Do lado de fora, o vizinho regava as samambaias da varanda — dava para ouvir a mangueira batendo na grade, um domingo inteiro de tédio escorrendo lá fora — e do lado de dentro ele a chupava havia vinte minutos, dedicado, competente, cinco volumes de treinamento na língua, quando ela fez a coisa mais cruel que uma mulher pode fazer com um homem de joelhos: suspirou de tédio também.

Ele ergueu os olhos. Ela olhava o teto com a expressão exata de quem confere se a pintura precisa de retoque.

— Tá ruim? — perguntou ele, ferido em três gerações de orgulho.

— Tá ótimo. Esse é o problema. — Ela apoiou-se nos cotovelos e o estudou, lá embaixo, entre as pernas dela, com o olhar de quem acaba de diagnosticar um defeito de projeto num prédio bonito. — Você me serve tão bem que eu fico passiva. Deitada, de pernas abertas, recebendo. Uma anfitriã. — A palavra saiu com um desprezo de rainha por trabalho de copeira. — Deitada eu recebo. Eu não quero receber... — e o sorriso que abriu devagar já era de outro reinado, de outra constituição — ...eu quero tomar.

A mangueira do vizinho parou. O domingo prendeu a respiração junto com ele.

— Semana que vem — decretou ela, deitando de volta e puxando a cabeça dele para terminar o serviço, porque anfitriã demitida ainda cumpre aviso prévio — a gente corrige a arquitetura.

✦ ✦ ✦

A correção começou na terça, quando chegou a caixinha — e ela fez questão de abri-la sozinha, trancada no banheiro, para depois sair com o objeto escondido nas mãos em concha, como quem carrega um passarinho que ainda não decidiu mostrar.

— Gemini — apresentou, abrindo as mãos só meio segundo: um vislumbre de duas presilhas delicadas, unidas por um fio, douradas na luz do abajur. E fechou de novo, cortina baixando no primeiro ato. — É pra mim. Pros meus mamilos, especificamente. Vibra. Conecta no app. — Ela guardou a caixinha na gaveta dela, do lado dela da cama, e virou uma chave imaginária no ar: — Você só vai ver funcionando no sábado.

— Por que sábado?

— Porque coroação tem protocolo. E porque eu quero você chegando lá morto de curiosidade.

Ela sabia esperar como ninguém — era a autora do método, a inventora da patente da espera — e passou a semana administrando a fome dele em doses de farmácia, colher medida. Na quarta, uma foto: a caixinha aberta sobre o lençol, o brinquedo dentro, intocado, uma natureza-morta de promessa. Na quinta, um áudio de onze segundos que era só o zumbido baixinho do Gemini ligado e, por cima, a respiração dela mudando de marcha — nada mais; ele ouviu quatorze vezes e em nenhuma descobriu onde, no corpo dela, o brinquedo estava trabalhando. Na sexta, a legenda sem imagem nenhuma:

"testei. aprovado. você não tem ideia do que vem."

E no sábado de manhã, o regulamento, na voz rouca de quem acordou já pensando nisso:

"Hoje à noite eu vou sentar na sua cara. Vou dizer do jeito claro pra você ter o dia inteiro pra desistir: o meu peso inteiro, os meus joelhos do lado da sua cabeça, a minha buceta na sua boca e ZERO cerimônia. Você vai ser meu assento, meu chão e meu súdito. Se topa, responde só 'aceito o cargo'. Se não topar, a gente janta fora e fica tudo bem. Mas eu acho... — risadinha — ...que você vai passar o dia ensaiando a resposta."

Ele respondeu em nove segundos. Passou o resto do dia como se tivesse bebido três cafés a mais que a conta: incapaz de sentar, de ler, de ser útil ao mundo. À noite, tomou banho como quem se prepara para posse de cargo público, e chegou ao quarto dela às nove — encontrando a cena montada com a precisão litúrgica que era a assinatura da casa: luz de abajur, a cama desfeita de propósito, e ela de pé ao lado, vestindo apenas o Gemini. As duas presilhas mordendo os mamilos com delicadeza de joia, o fio dourado descendo entre os seios como um colar ao contrário, apontando para baixo, para onde a noite ia acontecer.

— Pode olhar — permitiu, girando devagar, exibindo a coroação particular. — Olhar faz parte da espera. — Ela pegou o celular e, olhando nos olhos dele, subiu um nível no app. O efeito atravessou o corpo dela ali, na frente dele, ao vivo: os ombros recuando, o queixo subindo, um hm grave saindo sem pedir licença. — Tá sentindo o problema? Eu tô assim... — a voz falhou, ela riu da própria falha — ...há quarenta minutos. Imagina o meu humor.

— Imagino que dá pra negociar.

— Não dá. — Ela apontou a cama com o queixo. — Deita. De costas. Cabeça no meio do travesseiro. E as mãos... — pausa de juíza escolhendo a pena — ...as mãos hoje podem. Coxa, bunda, cintura: seu corrimão. Rainha nenhuma reclama de corrimão firme.

✦ ✦ ✦

Ela subiu na cama de joelhos e caminhou por cima dele devagar, um joelho de cada vez, o colchão cedendo e voltando sob o peso da monarquia, até parar ajoelhada sobre o rosto dele. E ali, pairando, a um palmo da boca dele, fez a última verificação de segurança da noite — os olhos nos olhos dele por entre as próprias coxas:

— Se precisar respirar, aperta minha coxa duas vezes. Se precisar parar, três. — A voz dela desceu meio tom, do trono para o quarto. — Vai precisar de pouco... e vai usar menos ainda.

— Aceito o cargo — repetiu ele, contra a pele dela, e sentiu o tremor que a frase subiu pelas coxas da rainha.

— Então recebe a coroa.

E sentou. Não desceu: sentou — com o peso inteiro, sem gentileza de estreia, sem a mesura da anfitriã, a buceta molhada esmagando a boca dele, e o mundo dele acabou em calor, gosto e escuro. A regra do velho mundo — a da anfitriã deitada, do serviço bem servido, da gravidade do lado errado — quebrou com o barulho exato de um gemido dela: o primeiro da noite, largo, de dona sentando no que é seu.

✦ ✦ ✦

Ela cavalgou a boca dele como quem finalmente assume o volante depois de anos no banco do passageiro fingindo gostar da paisagem. Esfregava-se sem pedir desculpa, usava o queixo dele, o nariz dele, a cara inteira dele como território anexado — e narrava, porque a voz era dela e o ar era dele, e essa era a nova constituição da noite:

— Língua dura. Isso. Agora dentro... me fode com a língua, fundo, sem preguiça... — o quadril dela girando por cima, colhendo o que a boca dele oferecia como quem colhe o que plantou — ...tá vendo como é diferente? Aqui em cima eu não recebo nada. Eu pego. Eu me sirvo. Você virou o quê, meu amor? Fala não, que boca ocupada não fala. Você virou lugar.

Ele gemeu dentro dela — a única língua que lhe restava, a materna confiscada — e a vibração do gemido a fez xingar bonito e subir um nível no Gemini, os mamilos presos pulsando mais forte, o circuito dela fechando por completo: as presilhas em cima, a boca dele embaixo, o quadril no meio, ela regendo os três pontos ao mesmo tempo, maestrina do próprio arrepio. Quando o primeiro orgasmo veio, ela não avisou — anunciou-se sozinho, nas coxas tremendo em volta das orelhas dele, no quadril perdendo a linha reta, no palavrão comprido que ela despejou no teto do quarto —, e ela o cavalgou até o fim sem erguer um milímetro, gozando na boca dele com o peso inteiro, tomando o que era dela por direito de coroa.

Depois ergueu-se meio palmo — o ar voltou aos pulmões dele junto com o cheiro dela, que agora era a atmosfera inteira do planeta — e deu a ordem seguinte com a voz desfeita e o comando intacto, as duas coisas convivendo nela como sempre conviveram:

— Mais atrás.

Ele obedeceu meio segundo atrasado — o suficiente para ela sorrir lá de cima, cruel e doce, e empinar-se para a frente, as mãos no peito dele, abrindo-se inteira:

— Você ouviu. Beijo grego. Na rainha. — E como ele hesitou mais um fôlego, ela completou com a frase que derrubou a última muralha: — É a parte da liturgia que separa súdito de favorito, meu amor. E eu tô te promovendo.

Ele beijou. Primeiro reverente, a língua circulando devagar o proibido — e o som que ela fez não existia em nenhum volume anterior do acervo: um gemido grave, de susto bom, de fronteira caindo sem resistência. Depois com fome, porque ela mandou ter fome — isso, aí, num para, cadê tua vergonha, PERDEU, achou não —, e ela rebolou na cara dele sem sobrar centímetro, alternando os destinos da língua dele com ordens curtas, buceta, grega, buceta de novo, os próprios dedos no clitóris, o Gemini no máximo: três instrumentos e um trono, a orquestra inteira dela tocando ao mesmo tempo.

A segunda gozada veio com aviso de tempestade — vai vir muito, num sai daí, NUM SAI — e veio esguichando: uma onda quente na boca dele, no queixo, no reino inteiro, e ele recebeu de boca aberta, bebendo a rainha direto na fonte, encharcado até o cabelo, enquanto ela tremia por cima e olhava para baixo no meio do próprio terremoto para dar a ordem que faltava na liturgia:

— Engole. E lambe o que sobrou. Coroação se aceita inteira.

Ele engoliu. Lambeu. E só então ela desmontou do trono, escorregando para o lado com as pernas ainda em greve, rindo daquele jeito escandaloso que os vizinhos já conheciam de outros capítulos — e voltou por cima dele um minuto depois, do jeito clássico agora, encaixando nele com um gemido fundo dos dois, para governar o final: inclinada sobre o rosto encharcado dele, lambendo o próprio gosto da boca dele entre uma obscenidade e outra, cavalgando devagar e fundo até os dois desabarem juntos — coroa, cetro e mobília no mesmo tremor.

✦ ✦ ✦

O quarto cheirava a ela — cheiraria por dias, ele descobriria com um estranho orgulho de zelador. Na rua, a mangueira do vizinho tinha voltado a bater na grade, regando samambaias alheias a tudo o que a monarquia decidira ali dentro. Ela estava esparramada de bruços, o Gemini enfim desligado e pendurado na cabeceira como troféu de guerra, e avaliava o estado do trono com o polegar, limpando devagar o queixo dele.

— Olha o estado disso — riu. — Uso intenso.

— A monarquia dá trabalho — respondeu ele, rouco de reinado. — Mas eu ouvi dizer que o cargo é vitalício.

— É. Decreto de hoje: assento cativo. Rainha não agenda... rainha ocupa. — Ela beijou o queixo dele, ainda com gosto de reino, e ficou um tempo quieta, traçando um círculo lento no peito dele, do jeito que fazia quando estava arquivando uma descoberta importante. Quando falou de novo, a voz vinha de longe, meio sonhada, e era exatamente o tipo de frase que não deixava homem nenhum dormir: — Aquela parte de trás... a da promoção... — o dedo dela parou no meio do círculo — ...eu gostei mais do que eu planejava gostar.

— Percebi. O reino inteiro percebeu.

— Pois é. — Ela subiu o olhar até ele, e o sorriso veio devagar, carregado de futuro e de obra pública: — Fica esperto, meu favorito. Aquela região... entrou em obras de expansão. Quando a outra porta abrir... — beijo no ombro, os olhos fechando, a rainha adormecendo em cima da própria promessa — ...você vai ser o primeiro a saber.

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