
"Dorme. Sábado que vem você acorda de coleira."
Ele acordou com o clique.
Não com o beijo, não com o cheiro de café, não com o despertador: com o clique — o fecho pesado do cordão de aço fechando na nuca dele enquanto ele ainda emergia do sono, as mãos dela terminando o serviço com a delicadeza de quem não pediu licença porque não precisava. O relógio da cômoda marcava 6h58. Pela janela, o sábado nascia com barulho de feira sendo montada na rua de baixo, um caminhão de verduras dando ré.
— Bom dia — disse ela, sentada na beirada da cama, já banhada, já vestida, já soberana às sete da manhã, o que exige método. — São sete horas. A troca começou. — Ela segurou o queixo dele com dois dedos, conferindo os olhos dele com carinho de inspetora de fábrica: — Regras de sempre, três toques, palavra amarela, tudo válido. Mas de resto, pelas próximas doze horas, você não decide nada. Nem a roupa. Nem o café. Nem quando fala. A vida vai continuar normal... — ela sorriu, e o sorriso era o programa inteiro impresso num rosto só — ...só que dentro dela, você é meu. Confirma pra mim.
— Sou seu. Das sete às sete.
— Sete às sete. Agora levanta, escova os dentes e me espera na cozinha. Sem roupa. A roupa, hoje, se ganha.
A manhã foi uma aula de como se tempera um homem em fogo doméstico, o fogo mais baixo e mais implacável de todos.
O café, ele serviu ajoelhado — não por drama: porque ela apontou o chão ao lado da cadeira dela e disse aqui, e ali ele ficou, nu e de coleira, erguendo a xícara para ela com as duas mãos enquanto ela lia notícias no celular com os pés apoiados nas costas dele, mobília requentada do volume do trono. Ela tomou o café sem pressa nenhuma. Elogiou o ponto. Não olhou para ele nem uma vez — e o não-olhar, ele já sabia dos estudos dela, era o tempero principal, o sal da coisa toda.
A roupa, ele ganhou às nove: calça e camiseta escolhidas por ela, sem cueca — "pra você lembrar do estado civil por baixo do disfarce" —, e o dia civil começou. E era isso, ele foi entendendo hora a hora, o gênio perverso da Troca: o dia era normal. Mercado com lista. Farmácia. A feira da rua de baixo, sacola de lona e tudo. Só que dentro do normal, invisível para todo mundo, corria a corrente: ela decidindo cada item da lista sem consultar, a mão dela enganchando o cordão por dentro do colarinho para atravessar a rua — de fora, um casal de mãos dadas no pescoço, quase ternura —, o código da clavícula acionado na fila do caixa, ele gravando o áudio no estacionamento entre um carrinho e outro, sussurrado contra o próprio ombro.
Ao meio-dia, o telefonema. A mãe dela — no viva-voz, porque ela quis no viva-voz —, vinte minutos de conversa sobre a tia, o médico da tia e uma receita de bolo de milho, com ela esparramada no sofá e ele ajoelhado ao lado, segurando o pote de esmalte enquanto ela pintava as unhas do pé, mudo conforme a regra, passando o algodão quando o dedo dela apontava. "Manda um beijo pra ele", disse a mãe ao desligar. Ela olhou para o escravo do esmalte e transmitiu, solene: "ela mandou um beijo". Ele agradeceu com a cabeça. As doze horas tinham dessas gentilezas absurdas.
Às quatro, a campainha: o entregador, com a compota de figo que ela tinha encomendado de uma vizinha que fazia doce. Ela atendeu com a porta meio aberta, simpática, demorando de propósito — perguntou da família, do preço da fruta, agendou a próxima — enquanto atrás da porta, a um metro e meio da conversa, ele esperava ajoelhado onde ela tinha apontado, nu de novo desde as três, o coração batendo na garganta a cada grau que a porta abria. Ela pagou, agradeceu, fechou. Encostou nas costas da porta com o pote de compota na mão e olhou para ele demoradamente, lá embaixo, o risco ainda queimando no ar entre os dois.
— Sabe o que eu tava pensando enquanto ela falava do figo? — A voz dela veio baixa e curiosa, como quem se descobre no meio de um pensamento. — Que eu podia ter aberto a porta inteira. E que uma parte de mim quis. — Ela abriu o pote, provou a calda com o dedo, e ofereceu o dedo para ele, distraída: — Anota essa parte. Ela vai dar capítulo.
Às seis em ponto, ela fechou as cortinas da sala com um gesto de encerramento de expediente e mudou de voz:
— Expediente externo encerrado. O mundo já teve você o dia inteiro fingindo que é gente. — Ela sentou no sofá, no centro exato, e apontou o chão à frente: — Agora começa o interno. Vem de joelhos... que daqui até as sete da manhã, meu bem, você não anda mais em pé.
A noite foi uma antologia — ela regeu o acervo inteiro da série como quem monta um baile de gala usando só as próprias joias, uma de cada volume.
Começou pelo trono, no sofá mesmo, sentando na cara dele com o vestido de ficar em casa ainda no corpo, sem pressa, gozando a primeira com o tecido amassado nas mãos dele — mãos autorizadas, corrimão de rainha. Passou pela boca suja, exigindo dele o vocabulário completo com a boca ocupada e rindo dos resultados impossíveis. Visitou a espera: levou-o três vezes à borda com a mão e a boca ao longo de uma hora de sofá, tapete e corredor, e três vezes o deixou lá, tremendo, agradecendo — porque agradecer, desde a sessão, tinha virado reflexo do corpo, anterior à vontade. E às dez, no quarto, com ele deitado e desfeito e coleirado, ela buscou a corda.
— Só os pulsos hoje — decidiu, amarrando com o nó do sofá, dois dedos de folga, o ritual já fluente nas mãos dela. — Porque o resto de você... — ela montou, guiou-o para dentro devagar, e o gemido dos dois se emendou no escuro — ...eu quero solto pra reagir.
Ela o cavalgou comprido, sem placar, com a mão fechada no cordão de aço e o corpo dizendo o que doze horas de posse tinham fabricado — e quando gozaram, primeiro ela, depois ele com o alvará sussurrado na boca, agora, meu bicho, me enche, o dia inteiro desabou junto: mercado, esmalte, feira, porta, tudo virando lastro do mesmo tremor final.
À meia-noite — sete horas antes do prazo — ela abriu o fecho da coleira.
Ele sentiu o clique na nuca e virou, surpreso. Ela pousou o cordão na mesinha, enrolado em espiral como uma cobra dormindo, e explicou antes que ele perguntasse:
— Adiantei o expediente. Senta aqui. — Ele sentou. Ela pegou as mãos dele, e o tom era o da mesa de negociação, o do café com sol na janela: — Balanço honesto. O dia foi... — ela procurou a palavra e desistiu de procurar — ...foi uma das melhores coisas que eu já fiz na vida. Mas eu preciso te contar o que eu descobri no meio dele, porque a gente não mente nessa casa. Nem por omissão.
— A porta do entregador.
— A porta do entregador. — Ela riu curto, pega em flagrante. — Mas não é só. É o esmalte, é o café, é você mudo do meu lado o dia inteiro. Eu esperava gostar do serviço, sabe? Do conforto. Mordomo, chá, pezinho pra cima. — Ela balançou a cabeça devagar, e os olhos dela acharam os dele com uma franqueza nova, quente e um pouco assustada de si mesma: — Não foi o serviço que me acendeu. Foi te ver pequeno. Ajoelhado atrás de uma porta, segurando esmalte, agradecendo beijo de sogra com a cabeça. Eu passei o dia inteiro molhada, meu amor. De te humilhar.
O silêncio que se abriu não era desconforto: era um mapa novo desdobrando na mesa, com regiões que nenhum dos dois tinha visitado.
— E aí? — perguntou ele, com a voz de quem já sabia a resposta e queria por escrito, assinada.
— E aí que hoje foi a versão diluída. Doméstica. Com feira no meio. — Ela levantou da cama, pegou o cordão da mesinha e o guardou na gaveta dela, do lado dela, e a última frase veio com a chave girando na fechadura: — Sábado que vem, sem feira, sem mundo, sem diluição. Você vai conhecer a minha pior versão... e vai sair de lá agradecendo. Traz joelheira.

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