
"Traz joelheira."
O documento chegou na quarta-feira por debaixo da porta do escritório dele em casa — ela estava na sala, a dez metros, e mesmo assim mandou por debaixo da porta, porque protocolo é forma e forma é metade do jogo, às vezes mais. Duas folhas impressas, grampeadas torto de propósito, com um título que o fez sentar:
*TERMO DE HUMILHAÇÃO CONSENTIDA — leia sentado*
Sábado, das 21h até quando eu decidir, você não vai ser meu namorado, meu parceiro, meu submisso nem meu convidado. Você vai ser meu escravinho — e escravinho não tem dignidade de estoque, só a que eu emprestar. Eu vou te humilhar. Com a boca, com os pés, com a risada e com o desprezo mais carinhosamente ensaiado que você já viu. Vou te chamar de coisas que não se repetem em mesa de jantar. Vou rir de você — de você, não com você. E você vai agradecer cada uma.
Abaixo, a lista do que eu pretendo. Marque SIM ou NÃO em cada item, sem pressa, com caneta. NÃO não se justifica, não se discute e não se pergunta duas vezes. O que você vetar simplesmente não existe no sábado. Os três toques e o amarelo valem sempre, soberanos, acima de mim.
Assinado: a Rainha — no seu pior. Que é o meu melhor.
Ele leu a lista duas vezes, com o coração em ritmo de fila de decolagem. Marcou SIM em tudo — menos num item, o penúltimo, onde a caneta parou, pensou, e escreveu NÃO com letra firme. Devolveu por debaixo da porta, conforme instruído.
Dez minutos depois, a folha voltou pelo mesmo vão. No item vetado, circulado em vermelho, ela tinha escrito uma palavra só: "respeitado". E embaixo, num P.S. que ele releria a semana inteira, decorando:
"E é exatamente por causa desse NÃO que todos os seus SIM valem alguma coisa. Sábado, 21h. Joelheira."
No sábado às 21h, o bilhete estava colado na porta do apartamento, na altura exata dos olhos, escrito na letra dela de processo:
Escravinho não entra pela porta como gente. Entra despido, entra calado, entra de quatro. A roupa fica dobrada na cadeira da entrada. Depois se arrasta até a sala e beija o que encontrar no caminho. Bem-vindo ao seu lugar.
Ele despiu-se no hall minúsculo com as orelhas quentes, dobrou a roupa na cadeira — dobrou bem, num resto de dignidade que já era saudade — e desceu para os joelhos. A joelheira, ela tinha deixado ao pé da cadeira: neoprene preto, novinha, com a etiqueta da loja de esportes ainda pendurada. O cuidado dentro da crueldade, sempre, invariável; a etiqueta balançou no primeiro movimento e ele engatinhou para dentro da própria casa como um estranho admitido por favor.
Ela estava no sofá. Vestida — vestida inteira, salto agulha e tudo, o contraste mais antigo e mais eficaz do repertório humano — com uma taça de vinho na mão e a televisão ligada num documentário de vulcões. Não olhou para ele. Ele beijou o que encontrou no caminho, conforme a ordem: o chão da sala, o pé da mesinha, e por fim — chegando ao sofá pelo tapete, o coração espancando as costelas — o salto agulha do pé direito dela, pendurado no ar, balançando no ritmo distraído de quem assiste lava escorrer numa ilha do outro lado do mundo.
E então: nada.
Quarenta minutos de nada. Ela viu o documentário inteiro — vulcões nascendo, ilhas se formando, um geólogo entusiasmado apontando fumarolas — com os pés apoiados nas costas dele, que ela dispôs de quatro diante do sofá com dois tapinhas no couro, como se ajeita um pufe. Trocou os pés de posição duas vezes. Fez hmm para as imagens. Serviu-se de mais vinho usando as costas dele de apoio para levantar. Em momento nenhum falou com ele — falou dele, uma vez, para o copo: "até que ele segura o peso direitinho" —, e ele, mobília com batimento, descobriu no meio da meia hora que a ereção mais constrangedora da vida dele tinha plateia de ninguém, e que isso a piorava em vez de aliviar.
— Documentário ótimo — disse ela por fim, desligando a TV, esticando-se toda. Só então olhou para baixo, para ele, como quem nota um objeto que sempre esteve ali e nunca precisou de atenção: — Ah. Você. — O pé direito dela desceu das costas dele e parou diante do rosto dele, o salto agulha fincado no tapete. — Pode agradecer o descanso que você me deu. Da maneira tradicional. Do bico ao calcanhar... e capricha no salto, escravinho, que ele aguentou seu peso simbólico a noite inteira.
Ele beijou. Do bico ao calcanhar, o couro frio e depois a pele morna do tornozelo, e o salto — lambeu o salto agulha da base à ponta com a devoção especializada de vinte e nove volumes, e ouviu, lá em cima, o primeiro suspiro de prazer dela da noite, o primeiro sinal de que a estátua no sofá tinha sangue e o sangue tinha temperatura.
— Abre a boca. — Ele abriu, o rosto erguido. Ela se inclinou para a frente, colheu o queixo dele na mão, mirou com calma de ourives... e cuspiu. Na língua dele, precisa, e fechou a boca dele com dois dedos por baixo do queixo. — Engole. É a única coisa que você vai beber de mim até eu mudar de humor. — E enquanto ele engolia, ela completou para o copo de vinho, no tom de conversa fiada: — Olha isso. Agradecendo com o olho. Eu fabrico gratidão, viu. Devia dar palestra.
Foi aí que ela pousou o vinho, sentou na beirada do sofá e ergueu a mão direita — aberta, parada no ar, à altura do rosto dele. Não desceu. Ficou ali, suspensa, uma pergunta feita de palma e cinco dedos, os olhos dela nos dele, esperando.
O item da lista. Marcado SIM com caneta, quarta-feira. Mas ela perguntava de novo, agora, no idioma da cena — porque papel autoriza e olho confirma, e ela nunca confundiu as duas coisas.
Ele virou o rosto devagar. E ofereceu a face.
O tapa veio no peso combinado — sonoro, quente, de estalo limpo —, a cabeça dele girando junto para desarmar o impacto, e o mundo dele acendeu em três mil watts: não de dor, que era pouca, mas de queda — o último degrau entre gente e coisa vencido de uma vez, com a marca dos dedos dela esquentando na bochecha como um carimbo de entrada num país sem volta.
— Agora você tá pronto — disse ela, e a voz tinha descido para o registro que só existia nas grandes noites. — Cor?
— Verde, Rainha.
— "Rainha". — Ela saboreou o título com um sorriso lento, cruel e apaixonado ao mesmo tempo, coisa que só ela no hemisfério sabia misturar sem estragar nenhum dos dois. — Aprendeu sozinho. Bom escravinho.
Ela o usou no tapete mesmo — o sofá era para gente.
Tirou a calcinha por baixo do vestido, sem tirar o vestido, sem tirar os saltos, e sentou na cara dele de salto fincado dos dois lados da cabeça dele, o tecido do vestido caindo por cima e apagando a luz — escravinho trabalha no escuro — e o cavalgou com desprezo cronometrado, tomando o prazer da língua dele e devolvendo em veredito: capacho... coisa... minha coisinha inútil que só sabe fazer ISSO... — o quadril dela travando, o fôlego rachando — ...e faz tão... tão bem feito...
Ela gozou a primeira rindo — e essa era a arma secreta do arsenal inteiro, a que nenhum brinquedo do catálogo alcançava: a risada. Gozar rindo dele, do estado dele, da devoção dele, o deboche e o orgasmo trançados num som só que chicoteava mais fundo que qualquer couro do armarinho.
— De joelhos. Senta nos calcanhares. — Ela voltou para o sofá, ajeitou o vestido, recuperou o vinho: plateia de novo. — Se toca pra mim. Aí, no tapete, na minha frente. E enquanto se toca, declara: o que você é, de quem você é, e por que uma mulher como eu perderia um sábado com uma coisinha como você.
Ele se tocou de joelhos diante dela e declarou — escravinho, dela, porque a Rainha se diverte, a resposta certa, ela aplaudiu com dois dedos na taça — e quando chegou perto da borda pela terceira vez, obediente, avisando como devia, ela negou com um dedo em pêndulo, ainda não, coisa, quem goza nessa casa primeiro, segundo e terceiro sou EU, e desceu do sofá para a segunda dela: montada na boca dele de novo, agora sem vestido no caminho, agora com pressa, agora chamando o nome dele no meio dos apelidos — o nome escapando entre "capacho" e "meu", a fresta de amor no muro do teatro, a prova de que o desprezo era todo alugado.
Só então ela apontou os pés. Descalçou os saltos com dois movimentos de tornozelo, cruzou as pernas na beirada do sofá e ofereceu o peito dos pés, lado a lado, como um altar baixo.
— Aqui. — A voz dela era brasa e comando. — Escravinho goza no lugar de escravinho: aos pés da dona. Agora.
Ele gozou nos pés dela em três espasmos de noite inteira, ajoelhado, o mundo branco — e antes que o mundo voltasse ela já tinha dado a última ordem, a que fechava a liturgia, suave como quem oferece sobremesa:
— Limpa. Com a língua. Dedo por dedo... — e enquanto ele lambia o próprio gozo do peito dos pés dela, dedo por dedo, agradecendo cada um como o termo previa, ela inclinou a cabeça e o assistiu com os olhos brilhando de um jeito que nenhum desprezo ensaiado disfarçava mais — ...isso. Pronto. Meu.
O que aconteceu depois não estava em nenhuma lista, porque não precisava: era a cláusula não escrita de todos os volumes, a que sustentava o resto.
Ela desceu do sofá para o tapete, sentou no chão com ele, puxou a cabeça dele para o colo e o embalou — embalou mesmo, os dedos no cabelo dele, o corpo dele desmontando em ondas pequenas, um tremor que era metade riso e metade outra coisa que molhou o joelho dela e que nenhum dos dois chamou de nome nenhum. Ela deixou. Fez shhh. Beijou-lhe a marca da bochecha, que já nem existia mais.
— Volta pra mim — murmurou, no tom da lanterna. — Devagar. O escravinho fica no tapete... o meu homem volta pro colo.
— Tô voltando — disse ele, depois de um tempo, com a voz lavada. — Selene. Aquilo tudo... a risada, o cuspe, o "coisinha"... — ele procurou no teto a palavra e achou a verdadeira: — Eu nunca me senti tão visto na minha vida. Explica isso.
— Fácil. — Ela continuou penteando o cabelo dele com os dedos, e a resposta veio pronta, pensada havia semanas: — Humilhação de estranho rebaixa. Humilhação de quem te ama por inteiro... libera. Eu só piso onde eu já beijei, meu amor. É por isso que você agradece. — E com a outra mão ela alcançou, da mesinha, um caderno que ele nunca tinha visto: capa preta, elástico, gordo de páginas manuscritas. Balançou-o de leve no ar, acima do rosto dele. — Sabe o que é isso?
— O quê?
— Nós. Todos os volumes. Do banho de vela até hoje — eu escrevo tudo, há meses, do meu jeito, com as minhas frases boas que você acha que eu improviso. — Ela guardou o caderno fora do alcance dele e sorriu, lá de cima, o sorriso de quem já redigiu o próximo capítulo inteiro: — Um dia eu vou te fazer ler em voz alta. De joelhos, claro. Do primeiro ao último... e ai de você se pular a parte do cuspe.

Contos novos, em breve narrados. Direto no seu e-mail.