Ardilune
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Capa — A Montaria
Ardilune · Contos · Nº 30

A Montaria

— Escravinho aprendeu a rastejar. Falta aprender a galopar.

"Eu só piso onde eu já beijei."

Ela voltou da rua numa quinta-feira com um embrulho comprido e o cheiro de loja de couro ainda no casaco — sela, arreio, graxa, aquele perfume denso de material de montaria que não existe em nenhum outro comércio do mundo. Desembrulhou na mesa da sala sem cerimônia: uma chibata de adestramento, de verdade, cabo trançado, ponteira de couro dobrado, flexível como um pensamento mau que ainda não decidiu se sai da cabeça.

— A vendedora perguntou pra qual cavalo era — contou ela, vergando a haste entre as mãos, testando o retorno, os olhos acesos de quem passou o dia rindo por dentro de uma piada particular. — Eu disse: "pônei". Ela disse que pra pônei bastava a ponteira macia. — Ela apontou a ponteira macia para ele, do outro lado da mesa, e concluiu a mensagem da loja inteira: — Eu levei a macia. Vê se merece.

✦ ✦ ✦

O aditivo chegou por debaixo da porta do escritório no dia seguinte — o protocolo do Escravinho agora era jurisprudência da casa, com súmula e tudo —, duas folhas grampeadas torto, caneta exigida:

*ADITIVO AO TERMO — a montaria*
Sábado, 21h. O escravinho sobe de categoria: vira animal de sela. Isso significa, marque SIM ou NÃO em cada item: nome de bicho a noite inteira (pônei, éguinha, montaria — eu escolho na hora, você atende a todos); inspeção de compra antes do uso, clínica e comentada; a coleira trabalhando de cabresto; a chibata — só nos flancos e na garupa, mapa anexo, contagem e agradecimento conforme a Sessão; e a doma propriamente dita: a Rainha monta, com o equipamento que você conhece — o que vibra dos dois lados. Você vai ser fodido e cavalgado na mesma frase.
Vetos serão respeitados e emoldurados, como sempre. Três toques e amarelo, soberanos, acima da Rainha e da loja de couro.
Assinado: a Dona do haras.

Ele marcou SIM em tudo — a caneta tremeu no "inspeção comentada", ele sabia o que a língua dela fazia com a palavra comentada — e devolveu pelo vão. A folha voltou dez minutos depois com um único acréscimo, no rodapé, em vermelho:

"Sem veto dessa vez? Que pônei corajoso. Sábado eu confirmo se foi coragem ou burrice. — R."

O sábado às 21h o encontrou onde o bilhete da porta mandou: no meio do quarto, despido, de joelhos e mãos no chão — de quatro, posição de compra —, com a joelheira de neoprene já sem etiqueta, veterana, e o coração batendo em trote. Ela entrou às 21h04, de propósito, e os quatro minutos de espera de olhos no tapete foram o primeiro chicote da noite, o invisível.

Entrou de botas. Ele viu primeiro as botas — cano curto, salto baixo, couro honesto — cruzando o campo de visão dele com a calma de quem visita o próprio estábulo antes do café. A chibata pendia da mão direita dela como um dedo a mais, longo e articulado.

— Vamos ver o que me venderam. — E começou a inspeção.

Foi clínica, demorada e devastadora. Ela circulou o animal três vezes, comentando alto, para ninguém, no tom de quem confere um lote de leilão: a ponteira da chibata correndo pelo flanco dele — "costela boa" —, subindo pela coluna — "lombo firme, aguenta amazona" —, cutucando a parte interna da coxa para ele afastar mais — "abre, pônei, compra se examina inteira" —, erguendo o queixo dele pela ponteira para olhar os dentes — "boa boca. Isso eu já sabia, o vendedor anterior era honesto". Quando chegou à garupa, apalpou com a mão espalmada, apreciativa, e deu o primeiro tapa leve, de avaliação, saboreando o som:

— Garupa de primeira. — A voz dela desceu meio tom, e o riso dentro dela era o riso do Escravinho, o que gozava dele: — Que desperdício essa montaria ter passado trinta volumes andando em pé.

A sela foi colocada conforme o aditivo: a coleira de aço ganhou uma alça de couro comprada na mesma loja — cabresto improvisado, rédea curta — e a preparação da doma seguiu a liturgia da casa: a língua dela primeiro, a grega de amansar, o dedo com carinho e depois o caçula vibrando baixo, o animal escarvando o tapete sem sair do lugar, obediente, lubrificado "como se encilha: sem pressa e sem economia".

✦ ✦ ✦

Ela vestiu o Lapis na frente dele — as botas ainda nos pés, e só as botas —, a parte curta deslizando para dentro com o gemido de encaixe que ele conhecia do volume da Recíproca, o brinquedo apontando dela como anatomia própria, patrimônio. Pegou a rédea com a esquerda. A chibata com a direita. E fez a pergunta de fundação, a que separava o jogo do brinquedo:

— Nome e cor, animal.

— Pônei da Rainha. Verde.

Meu pônei. — Ela puxou a rédea, o aço e o couro cantando juntos na nuca dele, e montou atrás dele de joelhos, o Lapis encostando onde o caçula acabava de sair. — Agora eu vou te ensinar as três marchas. E presta atenção, que no galope... — ela se inclinou por cima do lombo dele, a boca na orelha do animal — ...quem relincha sou eu.

✦ ✦ ✦

Entrou nele devagar — protocolo é protocolo até no estábulo — e a primeira marcha foi o passo: fundo, lento, a rédea curta obrigando o pescoço dele num arco, a vibração dupla ligada no baixo, ela sentindo cada avanço pelos dois lados do próprio corpo e narrando a doma com a voz já rachando de prazer: isso... que passo macio... pônei bem-comprado, bem-lubrificado, bem-fodido... a vendedora tinha que ver o pônei agora.

A segunda marcha foi o trote, e veio com a chibata. Nos flancos, conforme o mapa desenhado: estalos curtos e ritmados marcando o compasso que o quadril dela impunha, e ele contando cada um com o fôlego que sobrava — cinco, obrigado... seis, obrigado — a pele esquentando em listras, a humilhação e o prazer trançados tão apertado que o corpo dele desistiu de separá-los e passou a responder aos dois com o mesmo empurrão de garupa, pedindo mais no único idioma que animal fala: o corpo inteiro.

— Olha isso — riu ela lá em cima, o riso-chicote do Escravinho estalando mais fundo que a ponteira. — A montaria tá empinando pra trás. Pedindo trote. Que vergonha, pônei... — uma chibatada de capricho, um gemido dele sem vogal — ...que vergonha deliciosa. Anota no caderno depois: ele implorou de garupa.

O galope ela anunciou puxando a rédea até o pescoço dele arquear inteiro — e galopou: rápida, funda, as coxas batendo na garupa listrada, a vibração no máximo dos dois lados, o quarto virando estábulo e tempestade ao mesmo tempo, ela gozando a primeira em cima dele aos gritos, relinchando ela, conforme prometido, sem parar de cavalgar — atravessou o próprio orgasmo em galope, como as grandes amazonas atravessam rios — e foi no meio dessa segunda subida dela que aconteceu a coisa que nenhum volume tinha registrado antes: o Lapis no ângulo exato, o ritmo dela batendo naquele ponto por dentro dele a cada avanço, e ele percebeu, apavorado e maravilhado, que ia gozar sem mão nenhuma — a dele presa no chão, a dela na rédea e na chibata.

— Selene... eu vou... sem... como...?

— É a doma, meu bicho. — A voz dela veio de cima, ofegante e triunfal, o quadril cravando o ângulo com precisão de quem sabia exatamente o que estava operando ali dentro. — Montaria não usa mão. Montaria é ordenhada. — Ela galopou o ponto sem piedade nenhuma, a rédea curta, a chibata riscando o flanco no compasso: — Goza pro chão, pônei. Sem mão, sem alvará de toque, só do meu galope. AGORA.

Ele gozou para o chão — sem mão, ordenhado pelo ritmo dela, um orgasmo que veio de um andar do corpo que não tinha escada, comprido, esquisito, absoluto, o animal relinchando afinal com a voz do homem —, e ela desabou por cima do lombo dele gozando a segunda no mesmo tranco, os dois desmoronando juntos na cocheira do tapete, listrados, molhados, domados um pelo outro em partes iguais.

✦ ✦ ✦

O aftercare de animal de sela, ela executou com a seriedade ritual de sempre e uma novidade no bolso.

Desencilhou tudo na ordem inversa: o Lapis fora com cuidado, a alça de couro solta, a pomada de calêndula nas listras dos flancos aplicada com a mão espalmada — a mesma mão, sempre a mesma mão, a lei não escrita de trinta volumes. Trouxe água. E então, sentada no chão com a cabeça dele no colo, tirou do bolso do roupão um cubo de açúcar — um cubo de açúcar de verdade, embrulhadinho, roubado de algum café — e o encostou nos lábios dele.

— Prêmio de doma — explicou, séria como um juiz de hípica entregando fita. — Come na minha mão.

Ele comeu o açúcar na mão dela rindo — o riso quebrando pelo meio, virando outra coisa, voltando para riso — e ela penteou a crina dele com os dedos até os tremores acabarem, escovando o pônei, guardando o homem.

— Balanço — disse ele, depois de um tempo, com a voz que voltava do estábulo. — Eu fui comprado, inspecionado, encilhado, chibateado, fodido, cavalgado e ordenhado. Nessa ordem. E o que eu tô sentindo é... orgulho. Explica essa também.

— Fácil. — Ela pegou o caderno preto da mesinha — o caderno, o dos volumes — e o abriu no colo, por cima da cabeça dele, escrevendo já. — Orgulho é o que sente todo animal de raça quando encontra a amazona à altura. — A caneta correu; ela releu; aprovou. — Capítulo trinta. "A Montaria." Ficou bom... modéstia à parte, eu escrevo melhor do que cavalgo.

— Impossível.

— Concordo. — Ela fechou o caderno, beijou a testa do pônei e apagou a luz do estábulo com a última frase da noite: — Dorme, meu campeão. A loja tem sela... e o catálogo da vendedora tem mais três páginas que eu fotografei escondida no provador.

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