
"Eu escrevo melhor do que cavalgo."
Ela arrancou a página do caderno preto com uma régua — porque rasgar torto seria desrespeito com a obra — e a estendeu para ele através da mesa do café, dobrada em quatro, com o número 47 escrito no canto em lápis.
— Lê em silêncio. Uma vez só. — Ela soprou o café, os olhos por cima da xícara medindo cada mudança no rosto dele, milímetro por milímetro. — Depois me devolve e me diz se você tem coragem.
Ele leu. A página 47 era uma cena — escrita meses atrás, pela letra apertada dava para ver que numa madrugada — e a cena era numa igreja, e a mulher da cena era ela, e o homem era ele, e as palavras... as palavras não existiam em nenhum dos trinta volumes anteriores. Nem nas noites sem educação. Nem no tapete do escravinho. Eram palavras que ela tinha escrito sobre si mesma, para si mesma, no escuro — a fantasia mais funda do baú, a que inverte tudo: ela entregue, ela usada, ela rebaixada — e cada linha de diálogo dela na página terminava num ponto de exclamação de quem escreve com a mão esquerda ocupada.
Ele devolveu a página. Bebeu um gole de café que não sentiu. E disse:
— Tenho.
— Ótimo. — Ela guardou a página no sutiã, teatral, e sorriu o sorriso de quem esperou meses por aquele monossílabo. — Sábado, quatro da manhã. Você dirige. E escuta bem a regra do jogo, porque ela é uma só: palavra por palavra. Você não improvisa, não amacia, não edita. O texto é meu. Você é só... — ela mordeu a beirada da xícara — ...o intérprete.
A capelinha da estrada velha ficava num cotovelo de serra, aberta desde sempre — dessas que nenhuma paróquia lembra de trancar porque não há o que levar: seis bancos, um altar de mármore gasto, uma santa pequena de gesso com o manto descascado no ombro. Eles a conheciam de passagem, de domingos de outra vida, de outro casal que os dois tinham sido. Foi ela que escolheu, claro. A autora escolhe a locação.
Saíram de casa às três e meia, e a madrugada colaborou com o texto: chovia — uma chuva fina e teimosa de serra, e ela fez questão de atravessar o pátio da capela a pé, sem correr, o vestido fino encharcando devagar até virar uma segunda pele translúcida, colada nas costas, nas coxas, em tudo. Cinco metros de chuva foram o figurino inteiro. Quando chegaram ao alpendre, ela tremia — de frio, disse; de frio, mentiu — e o cheiro era o de sempre daqueles lugares: vela apagada, madeira velha, pedra fria, o incenso de décadas entranhado no reboco.
Dentro, o escuro era quase total. Só a primeira luz da madrugada, cinza-azulada, entrando pelas janelas altas e pela rosácea sobre a porta, desenhando losangos pálidos no piso. Os passos deles ecoaram como pertencendo a outras pessoas, a fantasmas de melhor comportamento.
— Última estação antes do texto — sussurrou ela, e o sussurro correu pelas paredes. Ela parou no meio da nave, de frente para ele, a água ainda escorrendo do cabelo, e falou pela última vez como diretora: — Palavra de segurança vale dobrada aqui dentro. Amarelo segura, vermelho para, três toques param até o eco. E uma coisa você precisa entender antes de abrir a boca: tudo que você vai me chamar lá na frente... — ela pegou a mão dele e a levou ao próprio peito, onde o coração batia em galope de página 47 — ...fui eu que me chamei primeiro. Você vai só me devolver a minha própria voz. É o presente mais caro que eu já te pedi. Entrega inteiro.
— E se eu tremer?
— Treme. — Ela sorriu no escuro, e a autora e a mulher eram uma só criatura molhada. — Mas não edita.
Ele respirou fundo uma vez — a última respiração de namorado — e virou o intérprete.
Agarrou o pulso dela sem aviso, conforme a rubrica, e a arrastou pela nave central — os passos dela tropeçando de propósito e de verdade ao mesmo tempo, o eco multiplicando os dois por dez — e subiu com ela os três degraus do presbitério até o altar de mármore. A santa de gesso olhava o próprio manto descascado. A chuva tamborilava no telhado como um público impaciente. E ele disse a primeira fala do texto com a voz que encontrou no fundo do próprio assombro — grave, estranha, dele e não dele:
— Curva essa bunda no altar. Agora, sua puta.
O gemido que ela soltou antes de obedecer não estava na página — era a autora ouvindo a própria obra em voz alta pela primeira vez, e descobrindo, no susto, que tinha escrito bem.
Ela curvou-se sobre o altar, as mãos espalmadas no mármore — frio de séculos, ela sentiu o frio subir pelos braços e arrepiar a nuca — e ele ergueu o vestido encharcado, o tecido pesado dobrando sobre a lombar dela como um pano de cerimônia às avessas. Cuspiu onde a página mandava, sem cerimônia nenhuma, e ajoelhou-se nos degraus onde gerações ajoelharam para outra coisa. Abriu-a com as duas mãos e enfiou a língua nela com uma fome que os trinta volumes anteriores tinham ensaiado — a grega completa, lambendo fundo, babando muito, o queixo escorrendo — e ela gemeu para o mármore um gemido que o eco devolveu do coro, dobrado, coautor.
Ele parou só para dizer a fala seguinte, os lábios ainda encostados nela:
— Fala que você é uma putinha safada que gosta de ser usada no altar.
— Eu sou... — a voz dela saiu manhosa, derretida, exatamente como a rubrica pedia, e ela percebeu no meio da frase que não estava mais atuando: — Sou uma putinha safada que gosta de ser usada dentro da igreja...
Ele lambeu mais forte de recompensa, e depois levantou-se, e entrou nela de uma vez — o caminho aberto pela língua, pela chuva, por três semanas de estágio de um volume antigo e por meses de página 47 — e começou a meter sem dó, as mãos cravadas nos quadris dela, o barulho dos corpos batendo profanando o eco de tudo.
— Olha só pra você — disse ele, socando, a voz do intérprete ganhando corpo a cada linha decorada. — Uma vadia de igreja, curvada no altar, sendo usada como uma cadela no cio. Tá gostando de ser usada aqui dentro, sua safada?
— Tô... — ela gemeu, empurrando de volta contra ele, coautora até de quatro. — Eu gosto... me usa... me trata como puta barata... arromba...
— Repete o resto. A fala inteira. Fala que você é só um buraco pra eu gozar dentro.
— Eu sou só um buraco... — ela obedeceu ao próprio texto, gemendo cada palavra, e as palavras no ar eram dez vezes maiores do que no papel: — um buraco pra você gozar dentro... me fode como se eu não valesse nada... me usa como quiser...
Ele saiu dela de repente — rubrica — e ajoelhou de novo, e voltou a lamber o que acabava de tomar, chupando com força, e foi aí que a autora quase chorou de tesão em cima da própria cena:
— Isso... lambe a sua puta... chupa o que você usou... que humilhação gostosa, meu Deus... — e o "meu Deus" saiu na igreja, e nenhum dos dois riu, porque Bataille tinha razão e aquele era exatamente o ponto onde o sagrado e o profano se tocam sem pedir licença.
Ele levantou e meteu de novo, agora sem parar, o mármore aguentando os dois como aguentou tudo por séculos, e despejou no ouvido dela a penúltima fala:
— Olha o teu estado. Vestido transparente, empinada no altar, sendo usada como uma vadia barata. Imagina se alguém entrasse agora... e visse você assim aqui dentro.
Ela apertou-o por dentro — ele sentiu o texto fazer efeito onde nenhum revisor alcança — e respondeu gemendo alto, a fala mais perigosa da página, a que ela tinha escrito e reescrito três vezes na madrugada:
— Deixa... deixa verem... eu sou sua puta... sua cadela de igreja... me fode... me trata como lixo... me usa até eu não aguentar mais...
— Vai gozar enquanto eu te chamo de puta?
— Vou... — a resposta veio rápida, sem manha nenhuma agora, urgente: — gozo sendo chamada de puta... de vadia... de buraco... me chama mais... me humilha mais...
Ele a segurou com força e meteu até o fundo, e disse a última fala do texto no ouvido dela como se rezasse ao contrário:
— Toma, sua putinha safada. Goza como a cadela que você é.
E gozou fundo, enchendo-a, e ela gozou junto no mesmo tranco — sem uma mão nela, gozou de palavra e de corpo e de mármore frio e de eco —, tremendo inteira sobre o altar, repetindo baixinho, já sem rubrica, já só dela:
— Isso... usa sua puta... usa sua cadela... sua...
O eco devolveu o "sua" três vezes, do coro, cada vez mais manso, até virar chuva de novo.
Saíram da capela como entraram: em silêncio, pé ante pé, ela com o vestido molhado ajeitado e o resto escorrendo por dentro — o souvenir de sempre, agora consagrado em altar de verdade. No alpendre, antes da chuva, ela parou, voltou-se para a nave escura e fez uma pequena reverência para o altar — de atriz para o palco, de autora para a obra, de devota para coisa nenhuma que ela soubesse nomear. A santa de gesso não comentou.
No carro, com o aquecedor no máximo e a serra clareando azul lá fora, ele quebrou o silêncio primeiro:
— A gente vai pro inferno.
— Vamos. — Ela espremeu o cabelo molhado na toalha que tinha trazido, previdente como toda diretora de produção que se preza. — Mas eu escrevo de lá. O inferno deve dar um material... — Ela recostou no banco, exausta e luminosa, e ficou um tempo olhando a estrada. Quando falou de novo, a voz era a da mesa do café: — Balanço. Como foi, do lado de dentro do intérprete?
— Assustador. — Ele pensou de verdade, como sempre que ela pedia a verdade. — Umas três falas eu quase amaciei. Aí eu lembrava: a autora se chamou primeiro. Eu só tava te devolvendo a tua voz. — Pausa. — Palavra por palavra, Selene. Não editei nada.
— Eu sei. Eu senti que não editou. — Ela pescou a página 47 de dentro do sutiã — molhada, a letra borrada, ilegível para sempre — e a pendurou no botão do aquecedor para secar, relíquia de guerra. Depois abriu a bolsa, tirou o caderno preto, e o abriu na página seguinte, virando-o levemente para ele não ler: — Agora dirige e não olha. Porque a página 48 existe, meu amor... — ela destampou a caneta com os dentes, começando a escrever com a letra apertada das madrugadas — ...e depois de hoje, ela vai precisar de revisão.

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