
"Uma princesa sendo oferecida... para ser devorada publicamente... perante a corte."
No ano em que a guerra do Sul acabou, Roma inteira mentiu luto, doença e viagem para estar viva, saudável e presente na Festa do Tributo — porque o Imperador Ferdinando dava a festa a cada equinócio, mas naquele equinócio, pela primeira vez, o tributo tinha nome, título e uma cláusula que nenhum escriba admitia ter redigido, embora a caligrafia de um deles o entregasse.
O tratado de paz — lido em praça pública por um arauto que precisou recomeçar três vezes, de tanto murmúrio — dizia, no artigo final: em vez de ouro, cavalos ou âmbar, o Sul entregaria a própria princesa. Uma noite. Diante da corte reunida.
E a fofoca — a verdadeira moeda de Roma, mais forte que o denário e mais rápida que qualquer estrada imperial — dizia mais. Dizia que os embaixadores do Sul chegaram à mesa de negociação oferecendo o dobro em ouro, o triplo em cavalos, rotas de comércio, especiarias, pérolas do tamanho de olhos. E que a princesa, sentada à direita do pai, os interrompeu com uma frase que atravessou o mar mais rápido que os navios que a trouxeram:
— O império quer o que todo império quer. Mandem a mim. — E quando o pai protestou, dizem que ela acrescentou, calma como quem escolhe tecido no mercado: — E mandem construir um estrado alto... que eu não me ofereço em canto escuro.
Roma passou o mês seguinte doente de imaginação.
O salão dos banquetes foi preparado por quarenta escravos durante quatro dias, e o mordomo-chefe — um homem calvo e implacável chamado Rufo, que já servira três imperadores e não se impressionava com nada desde o incêndio do teatro — dirigiu a obra como um general dirige um cerco.
No primeiro dia, as colunas: doze colunas de mármore envoltas em seda cor de vinho, cada volta do tecido conferida a prumo, porque seda enrolada torta, dizia Rufo, "denuncia casa sem dono". No segundo, o chão: o mosaico do triunfo de Baco desapareceu sob um palmo de pétalas — rosas de três províncias, descarregadas em carroças que perfumaram o caminho do porto ao palácio, e meninos foram pagos para caminhar descalços sobre elas e amassá-las de leve, porque pétala intacta enfeita, mas pétala pisada cheira. No terceiro dia, a luz: candelabros de bronze do tamanho de árvores, içados por cordas e xingamentos, carregados de velas de cera de abelha — e mel, favos inteiros pendurados entre as luminárias, gotejando devagar sobre travessas de prata postas ali só para receber o gotejo, um relógio de doçura marcando a espera. No quarto dia, as feras mansas: seis pavões soltos entre os divãs, arrastando as caudas pelas pétalas com desdém profissional, e um leopardo velho e gordo, de coleira de ouro, que dormia ao pé da mesa de ostras e não abria um olho nem por elas.
E ao fundo, sobre um estrado de sete degraus — a cláusula pedia alto, o Imperador entendeu o espírito e mandou dobrar a altura do projeto —, o leito: largo como uma jangada, forrado de púrpura três vezes tingida, iluminado por doze tochas em tripés de ferro, com um espelho de bronze polido do tamanho de uma porta montado à cabeceira, inclinado por cálculo de geômetra. Rufo perguntou para que servia o espelho. O Imperador respondeu sem erguer os olhos do projeto: "Para que ela não perca de nada." Rufo, que não se impressionava com nada, precisou sentar.
A corte começou a chegar ao pôr do sol, faminta de tudo.
Veio o senador Metelo, oitenta anos e três esposas enterradas, que exigiu divã de primeira fila alegando surdez — mentira: ouvia um denário caindo no quarteirão vizinho. Veio a matrona Cássia, a mais rica viúva de Roma, abanando-se com um leque de plumas de avestruz antes de qualquer calor, apostando alto com as amigas sobre quanto tempo a princesa aguentaria "sem se desmanchar" — e apostando, notaram as amigas, com um brilho de quem torcia para perder. Veio o poeta Ovínio com uma tabuleta de cera escondida na túnica, decidido a anotar tudo e ser expulso tentando. Vieram generais com as esposas, herdeiras com os tédios, um embaixador do Oriente que fingia não entender a língua e não perdia uma sílaba. Trezentas pessoas untadas de óleo perfumado, vestidas com o melhor pano do mundo conhecido, deitadas em divãs na disposição que Rufo desenhara — todas orientadas, sem parecer, para o estrado.
Serviu-se o banquete de espera: ostras do estreito sobre neve trazida da montanha em carroças forradas de palha; línguas de flamingo que ninguém achava gostosas e todos comiam por status; javali recheado de tordos vivos que saíram voando no trinchar, arrancando o único aplauso inocente da noite; vinho de três impérios em crateras fundas — e figos. Travessas e travessas de figos abertos ao meio, exibindo a própria polpa rosada sem nenhum pudor, e ninguém no salão era ingênuo o bastante para achar que o cardápio não tinha autor.
A música: flautas e tambores baixos, o ritmo calculado para lembrar batimento cardíaco. Rufo tinha ensaiado os músicos pessoalmente: "vocês não tocam para os convidados. Vocês tocam para o sangue deles."
Nos aposentos do andar de cima, enquanto Roma comia línguas de flamingo, a Princesa do Reino do Sul era preparada — e essa cena, que a corte não viu, foi a mais bonita da noite.
O banho: água com leite de jumenta e pétalas de flor de laranjeira, numa banheira de pedra onde ela ficou até a ponta dos dedos enrugar, de olhos fechados, respirando fundo — não de medo, a dama de companhia mais velha percebeu e calou. De véspera. O corpo: óleo de amêndoas aquecido nas mãos de duas damas, espalhado devagar dos ombros aos tornozelos até a pele inteira dela pegar a luz como bronze novo saído da forja. O cabelo: solto, por ordem dela — as damas queriam tranças reais, ela recusou com uma frase que virou provérbio no quarto: "trança é pra quem vai casar. Eu vou pra guerra." Entre as coxas, um toque de perfume de âmbar, aplicado por ela mesma, com um meio sorriso no espelho de mão.
O vestido a fez rir quando o desdobraram: uma calúnia em seda branca, tão fina que dobrada cabia num punho, presa nos ombros por dois alfinetes de ouro que qualquer dedo adulto desfaria. Ela o vestiu sobre nada. Olhou-se no espelho de corpo — a seda contava tudo, os seios, a barriga, a sombra escura entre as coxas, tudo em versão anunciada, que é pior que versão exibida — e aprovou com a cabeça, uma vez, o gesto de quem confere a própria espada antes da batalha.
— Senhora... — a dama mais nova, de coragem trêmula, na porta: — não é tarde para pedir clemência. Dizem que o Imperador atende...
— Clemência? — A princesa virou-se, e a dama viu no rosto dela aquilo que os cronistas tentariam nomear a noite inteira e não conseguiriam. — Menina... eu redigi a cláusula, escolhi o vestido e mandei subir o estrado. — Ela apanhou a barra da seda e caminhou para a porta, descalça, passando pela dama como uma corrente de ar quente: — Clemência quem vai precisar pedir... é Roma.
Ela entrou no salão quando a lua chegou à janela — e as flautas pararam sozinhas, o que não estava no ensaio de Rufo.
Atravessou o salão descalça sobre as pétalas pisadas, escoltada por seis damas que ninguém olhou. O passo lento, medido, de quem sabe que cada segundo do trajeto está sendo cobrado dos presentes em juros de fôlego. A seda branca acendendo e apagando contra o corpo a cada tocha que passava. O leopardo velho abriu um olho — o único movimento que aquela fera fez em quatro festas — e a acompanhou até o fim do salão. O senador Metelo esqueceu a surdez fingida e a idade verdadeira. A matrona Cássia parou o leque no ar, a aposta morrendo na boca. E o poeta Ovínio, com a mão já dentro da túnica procurando a tabuleta, escreveu às cegas, torto, a única linha que sobreviveria da noite: "ela veio como quem cobra."
No topo dos sete degraus, o Imperador esperava de coroa de louros e túnica púrpura aberta no peito, a taça intocada na mão — um homem que jejuou o ano inteiro para uma única ceia. Quando ela alcançou o primeiro degrau, ele desceu três. O protocolo caiu no chão junto com o queixo de dois senadores: imperador não desce. Aquele desceu. Ofereceu a mão. Ela não a beijou, como mandava o rito — apertou-a, de igual para igual, o escândalo silencioso subindo pelas fileiras de divãs como maré de sizígia, e disse baixo, só para ele, movendo os lábios devagar para a corte inteira ler:
— Vim cobrar minha cláusula, Imperador. Reza pra estar à altura dela.
— Rezei o ano inteiro — respondeu ele, no mesmo volume público-secreto. — Os deuses mandaram te dizer... que hoje eles assistem do teto.
O arauto leu o tratado do alto do terceiro degrau, desenrolando o papiro com mãos que mereciam aumento: os artigos do comércio, das fronteiras, dos rios — a corte suportou tudo aquilo mastigando figos — e enfim a cláusula, a única que Roma sabia de cor, anunciada com a voz empostada de quem sabe que está lendo história e não documento:
"...e como selo da paz, a Princesa do Reino do Sul se entrega, por vontade declarada e prazo de uma noite, ao Imperador — diante da corte reunida, que desta união será testemunha, para que nenhum dos dois reinos jamais alegue que a paz foi feita no escuro."
— Vontade declarada — repetiu o Imperador, alto, para o salão. E virou-se para ela, e fez diante de trezentas pessoas a pergunta que valia mais que o papiro inteiro: — Declara, princesa?
Ela deixou o silêncio esticar — três batimentos de tambor, os músicos suando — e respondeu olhando não para ele: para a corte, correndo os olhos fileira por fileira, recolhendo cada olhar como quem recolhe impostos atrasados:
— Declaro. E acrescento, pra constar em ata... — o meio sorriso dela abriu inteiro — ...que fui eu que exigi testemunhas. Aproveitem, Roma. O Sul não manda tributo duas vezes.
Então vieram os alfinetes.
Ele a conduziu ao centro do estrado, virou-a de frente para o salão — trezentos pares de olhos, os divãs rangendo de inclinação, a matrona Cássia com o leque parado no ar desde a travessia — e tirou o primeiro alfinete de ouro com dois dedos, devagar, erguendo-o depois acima da cabeça para que todos vissem, como se consagra uma hóstia. A seda escorregou do ombro esquerdo dela e parou no seio, dependurada num fio de física piedosa. Pausa de três tambores. O segundo alfinete, erguido igual. E o vestido inteiro desceu pelo corpo dela como água atrasada, empoçando nos pés — e a Princesa do Reino do Sul ficou nua diante de Roma, de queixo alto, brilhando de óleo de amêndoas sob doze tochas, os mamilos endurecendo à vista de todos não de frio, porque não fazia frio.
O suspiro coletivo apagou duas velas. Rufo, ao fundo, fez sinal para ninguém reacender.
Ele começou devorando — porque o convite prometia degustação, e o Imperador era homem de manifesto.
Deitou-a na púrpura com a cabeça voltada para a corte — que vejam teu rosto, princesa; o corpo é paisagem, o rosto é o espetáculo — e ajoelhou-se diante dela como não se ajoelhava diante de ninguém desde a coroação. Abriu-lhe as coxas como quem abre as grandes portas de um templo em dia de festa. Olhou — demorou olhando, o salão inteiro olhando ele olhar — e anunciou, sem pressa, com a voz de quem lê um cardápio sagrado:
— Roma... o Sul tem mel.
E desceu a boca nela diante de trezentas pessoas. Comeu-a sem pudor e sem técnica de corte — com a fome verdadeira, a que faz barulho, a que baba, a que agarra as coxas e puxa mais para perto —, e a princesa, que tinha planejado gemer com elegância diplomática, perdeu o plano na terceira lambida e gemeu como se estivesse sozinha no mundo, alto, arqueada, as mãos agarradas na coroa de louros dele, arrancando três folhas que planaram do estrado como outono imperial. No espelho de bronze da cabeceira ela via tudo: ela mesma aberta sob doze tochas, a cabeça coroada trabalhando entre as próprias coxas, e atrás, invertida, a plateia de Roma inclinada para a frente — e foi olhando para o espelho que ela gozou a primeira vez em solo romano, um grito agudo que os músicos, atentos ao ensaio de Rufo, acompanharam com tambor.
A corte, que viera para vê-la humilhada, descobriu-se aplaudindo o prazer dela. Essa inversão, anotariam os cronistas, foi o verdadeiro golpe de estado da noite.
— A cláusula fala em entrega mútua — disse então a princesa, erguendo-se nos cotovelos, ofegante e sem um grama de derrota, e o salão silenciou para ouvi-la mudar o jogo: — Deita, Imperador. Roma já viu você comer... — ela empurrou o peito dele com um pé, e ele deitou, e ninguém respirou — ...agora Roma vai ver o Sul retribuir.
E o devorou de volta. Desceu por ele com o cabelo solto varrendo a púrpura, tomou-o na boca inteiro diante do senado — o cetro, dirá o poeta Ovínio na tabuleta, "recebendo enfim uma coroação sincera" —, chupou com gosto e com baba e com os olhos erguidos para ele o tempo todo, e quando o sentiu tremer perto demais, parou, apertou a base com dois dedos de veterana e sentenciou para o salão ouvir:
— Ainda não. O tributo tem ordem de entrega... e a melhor parte vai pro final.
— E qual é a melhor parte, princesa? — perguntou o Imperador, com a voz em farrapos dignos. — Diz alto. Pro teu reino ouvir daqui.
Ela montou nele ao contrário primeiro — de frente para a corte, exibida, cavalgando o comprimento dele sem deixá-lo entrar, esfregando-se, untando-o nela, a tortura pública do quase — e respondeu por cima do ombro, alto e claro, a palavra caindo no salão como a coroa de um rei morto rolando no mármore:
— O cu. A princesa do Sul vai dar o cu pro Imperador de Roma, na frente da corte inteira, no estrado que ela mandou construir. — E como o silêncio ficou grande demais até para ela, acrescentou a cláusula final, olhando para o embaixador do Oriente que fingia não entender a língua: — Traduz essa, embaixador. E ai de quem me poupar. Eu não atravessei um mar pra ser tratada como porcelana.
O azeite veio numa ânfora de prata aquecida em banho de brasa, carregada por um criado de dezenove anos que envelheceu dez no trajeto. O Imperador a pôs de joelhos na púrpura, de frente para o espelho de bronze — tu não perdes nada hoje, princesa, nem de ti mesma — e derramou o fio de azeite morno da lombar ao destino, escorrendo pelo vale dela sob doze tochas, o salão acompanhando o trajeto da gota em silêncio de templo. Ajoelhou-se atrás. Abriu-a com os polegares. Cuspiu, sonoro, sem cerimônia — o eco respondeu do teto — e enfiou a língua onde nenhum tratado tinha jurisdição: a grega imperial, molhada, funda, a coroa de louros afundada entre as nádegas da princesa enquanto ela gemia de olhos abertos para o espelho, narrando para o salão porque o rito exigia voz:
— Isso... lambe... o Sul mandou tudo, Imperador... prova teu tributo inteiro... — e mais baixo, só para o espelho, só para ela: — ...e que os deuses anotem que fui eu que pedi.
Quando ele entrou nela — devagar primeiro, um centímetro e a pausa, conforme mandam os deuses e os protocolos que valem em todos os impérios de todos os tempos —, o rosto dela no espelho era um mapa em tempo real: o susto, a conquista, o orgulho, a fome. E quando ela disse agora — ela disse; ela sempre diz, em todos os impérios —, ele a tomou por inteiro e meteu como o convite prometia: sem dó, os quadris estalando contra a garupa dela, o som varando a música e o decoro, a princesa cheia e pública gemendo de boca aberta, o colar de suor descendo entre os seios balançando no ritmo da posse, o leopardo velho assistindo com o queixo nas patas, único ser do salão sem inveja de ninguém.
— Olha pra eles — rosnou o Imperador no ouvido dela, fodendo-a funda, apontando a corte com o queixo. — Trezentos nobres pagando pra te ver... senadores, generais, herdeiras... e nenhum vai te ter. Nenhum. Fala pra Roma de quem tu és.
— Dele! — gritou ela para o salão, gozando a segunda no meio da palavra, à vista de todos, o corpo em espasmo público. — A puta imperial é DELE... o cu, a boca, o mel, a coroa... tudo dele... assistam... assistam e morram de inveja...
E Roma obedeceu à princesa: assistiu e morreu. A matrona Cássia abanava-se em ritmo indecoroso, a aposta perdida e o brilho ganho; o senador Metelo chorava sem saber por quê, oitenta anos resumidos numa lágrima; a esposa de um general mordia o ombro do marido; a herdeira da primeira fila tinha a mão sumida na túnica e nenhuma vergonha sobrando; e o poeta Ovínio desistiu da tabuleta e decidiu decorar, porque cera não merece tudo. Nos divãs do fundo, dois casais desistiram de fingir compostura, e Rufo, guardião do protocolo, olhou para o outro lado com a primeira meia-lágrima de orgulho profissional da carreira.
No estrado, o Imperador virou a princesa de costas para a púrpura — quero teu rosto no fim; o resto foi de Roma, o rosto é meu —, ergueu as pernas dela sobre os próprios ombros e entrou de novo no tributo, e cavalgaram juntos o final, olho dentro do olho dentro do olho de trezentos, o espelho de bronze testemunhando por cima, até ele despejar o império inteiro dentro dela com um urro que apagou mais quatro velas — Rufo deixou — e ela recebê-lo gozando a terceira, rindo e tremendo ao mesmo tempo, coroada de nada e dona de absolutamente tudo.
No silêncio de depois ouviu-se apenas: cera pingando, um leque caindo, o leopardo bocejando. E a princesa do Sul — desfeita, escorrendo, esplêndida, o azeite e o império descendo por dentro das coxas diante do mundo — ergueu-se nos cotovelos, correu os olhos pela corte devastada, e disse com a voz rouca e a pose intacta a frase que encerrou a festa e fundou uma lenda:
— Podem aplaudir. Eu ensaiei meses.
Roma aplaudiu de pé. Dizem que o aplauso durou até o sol nascer; dizem que os pavões aplaudiram junto; dizem muita coisa — cronista de Roma nunca prestou. Mas três fatos constam em ata: o senador Metelo pediu a mão da própria esposa em casamento de novo, na saída; a matrona Cássia pagou a aposta rindo; e o tratado de paz do Sul jamais, em geração alguma, foi quebrado.
A aurora encontrou o salão em ruínas honrosas: pétalas mortas em combate, taças tombadas, o leopardo dormindo de barriga para cima como um tapete arrependido, senadores sendo carregados para as liteiras com sorrisos que as esposas não viam há décadas. A matrona Cássia saiu por último, de leque fechado — a primeira vez em trinta anos, juram os porteiros. Rufo comandava a retirada com a voz gasta e a meia-lágrima já seca, sabendo que dali em diante toda festa da sua carreira seria comparada a essa, e perderia.
No alto dos sete degraus, atrás das tochas que morriam uma a uma, o Imperador arrancou a púrpura inteira do leito de um puxão — que a jangada ficasse nua, ela tinha servido — e envolveu a princesa nela, camada por camada, até sobrar só o rosto: os dois escondidos no meio do palco, invisíveis afinal por saciedade alheia. Da travessa que Rufo deixara ao alcance — o velho sabia das coisas —, ele pegou o último figo aberto e o ofereceu aos lábios dela.
— Come — disse, na primeira voz sem plateia da noite inteira. — Tributo também se alimenta.
— Tributo... — Ela aceitou o figo com os dentes, mastigou devagar, os olhos correndo pelo salão devastado lá embaixo como uma general confere o campo vencido. — Me diz uma coisa, Imperador. Da janela dos teus aposentos... quantos reinos se veem?
— Todos.
— Ótimo. — Ela aconchegou-se na púrpura e no peito dele, os olhos fechando de conquista, e a última frase da noite saiu mansa e definitiva, no tom de quem já mandou medir madeira para o próximo estrado: — Aproveita a vista enquanto ela é tua, meu amor. No próximo equinócio, Roma assiste à coroação da Imperatriz... e adivinha quem sobe ao estrado de tributo?

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